Category Archives: Mundo

Panorama internacional

Boys, maçons e ratings

1. Ouvi dizer que há por aí um movimento de indignados contra as nomeações para o Conselho Geral e de Supervisão da EDP, e posteriormente, contra as nomeações para a Administração das Águas de Portugal. Como sempre, cronistas e opinion makers preferem aderir à notícia populista, de carácter sensacionalista que mais facilmente encontra revolta nos corações dos portugueses. Primeiro, foi um escândalo. Eduardo Catroga e Paulo Teixeira Pinto eram boys. Como tinham participado respectivamente na elaboração do programa do PSD e nas negociações com a Troika e com a proposta de revisão constitucional, foram imediatamente trucidados em público. Depois, quando alguém decidiu informar a cartilha de indignados que afinal eles até já participavam em mandatos anteriores do Conselho Geral e de Supervisão da EDP os ânimos esmoreceram-se. Mas rapidamente engendrou-se outro pretexto. Vieram então as virgens ofendidas dizer que Catroga recebia demais, 45 mil euros mensais, veja-se lá! As pessoas tendem a ignorar que o salário auferido não será pago pelo Estado… Aliás, cito:

“50% do que eu ganho vai para impostos. Quanto mais ganhar, maior é a receita do Estado com o pagamento dos meus impostos, e isso tem um efeito redistributivo para as políticas sociais” – Eduardo Catroga

É verdade que é gritante a discrepância entre os salários baixos em Portugal e este. Todavia, o país insiste em não compreender o que é fait-diver do que é estrutural, a atender ao que é prioritário em detrimento do que é acessório. António Capuchos surgiu com um argumento brilhante, de que este salário se reflectiria na factura de electricidade. Ora, se o conselheiro de estado soubesse minimamente de política enérgica saberia duas coisas: 1) que a EDP foi alienada e que caminhamos para um mercado livre e pluralista, sendo que o consumidor pode deixar de consumir da EDP a qualquer momento 2) que a factura da EDP tem este preço porque se tem subsidiado maniacamente as renováveis sem se impor metas e riscos para os privados (50% da factura da electricidade é subsídio às renováveis).

    Quantos aos administradores recentemente nomeados para a AdP, temo que de facto haja um conflito de interesses. Acredito que os autarcas tenham experiência acumulada e currículo para ocupar estas funções, mas quando são presidentes de municípios que estão altamente endividados e o credor é as Águas de Portugal, suspeito não ser possível salvaguardar os interesses de todos.

    2. Felizmente a época maçónica perdeu ânimo. Entrincheiraram-se posições por todo o lado. Uns aclamavam guerra aos maçons, afirmando a necessidade de declararem um registo de interesses; outros argumentavam a favor da privacidade dos deputados. É importante escrutinar estas dinâmicas de poder, quer dentro dos partidos, quer dentro das empresas. Todavia, nada disto interessa ao país. Efectivamente o folclore maçónico contrastou em muito com o que foi a completa passividade com que os jornalistas aceitaram a privatização da EDP, as conversas na Concertação Social ou as decisões cimeiras europeias. Não há debate em Portugal, não se aprende com estudos científicos nem experiências internacionais, continuamos a insistir em dissidir uns dos outros pela demarcação ideológica. Obviamente que as grandes decisões de Estado raramente saem perscrutadas e compreendidas.

    3. Recentemente a agência Standard & Poor’s cortou os ratings de Portugal, Espanha, França, Itália entre outros países. Clamaram-se vozes contra, desordenadas, ambíguas e pouco convictas. Afirmaram lugares comuns – “ataques especulativos dos EUA” – e não realçaram a necessidade premente de uma federação europeia política e económica. Ainda assim, a Espanha foi aos mercados com juros relativamente baixos o que já indica que os investidores europeus já pouco querem saber de ratings descredibilizados, intuídos por uma agenda política oculta.

Nota final: Uns chamam de Pacto de Agressão outros o Pacto de Salvação, mas a verdade é que o Pacto da Troika tornou-se no Pacto Olvidado nestes últimos meses.


Chega! Há que dizer BASTA!

Quando Manuela Ferreira Leite (MFL), durante a pré-campanha eleitoral de 2009, disse num jantar-comício que o país precisava de 6 meses de ditadura para pôr as contas públicas em ordem, vieram logo à imprensa os paladinos da república (dos quais eu) da esquerda à direita contra este tipo de diktats políticos. Ora, hoje arrependo-me de ter vociferado contra a viscondessa laranja.

No entanto, isto não é, de maneira alguma, a apologia do diktat da troika, imbuído de um neo-liberalismo cego, surdo e mudo, incapaz de responder aos novos desafios de uma economia globalizada. Pelo contrário! MFL tem razão numa coisa. Não há maneira de resolver os problemas num regime, quando o próprio regime falha em se diagnosticar. A República democrática, parlamentar portuguesa está enferma. Porém, a solução não será a antiga república bolchevique totalitária ou um regime salazarista corporativo. Infelizmente, também não podemos importar e aplicar o modelo nórdico de governação por três motivos essenciais: a) estamos na zona euro, o que nos leva a constrangimentos na política monetária que não se colocaram aos países nórdicos; b) duvido que Portugal esteja dotado de uma mentalidade capaz de suportar, em justiça, um regime tão equilibrado; c) todos os países nórdicos são pletóricos em recursos energéticos – é pura e dura demagogia ignorar este facto quando se estuda o modelo de financiamento do Estado social nórdico.

Ainda não há um modelo delineado, ainda não chegou um Lenine ou um Mussolini para criar um novo paradigma de governação. Ainda assim, podemos agir. É bastante fácil na verdade. Os movimentos dos Indignados com Wall Street espalharam-se por todo o mundo. Felizmente o contágio grego não é só a nível financeiro! Está na altura de responsabilizarmos os políticos e CEOs pela trapalhada que fizeram da economia internacional. Como Ted Rall afirmou no Manifesto Anti-Americano, no dia em que Sarkozy for puxado pelos Campos Elísios e confrontado pelos franceses é que assistiremos a uma mudança profunda. Hoje não há qualquer respeito pelos protocolos democráticos. Assim sendo, não há sentido algum em continuar a colaborar com um status quo que se tenta salvar com uma retórica de reformismo que ainda por cima tarda a chegar. Chega! Há que dizer BASTA! Para aqueles que gostam de etiquetar tudo através da história, gostava-lhes de lembrar que o fundador do Liberalismo, John Locke, disse peremptoriamente que se os cidadãos se sentissem ultrajados pela governação efectuada, tinham o direito de derrubar esses falsos representantes da vontade pública e eleger novos actores políticos.

Porque é que ainda não o fizemos? Parece-me óbvio… Quantos de vós conhece John Locke? Quantos de vós conhece o Contrato Social estabelecido na obra Dois tradados de governo civil ? Se Locke vivesse o martírio desta conturbada época, dir-nos-ia com certeza que os derivados financeiros são um roubo; que não é do interesse comum da população pagar Parcerias Público-Privadas que só alimentaram a Mota-Engil & Amigos, LDA; que o senhor Alberto João Jardim já teria sido decapitado por Henrique VIII.

Estão à espera do quê? Vão ler Locke! Marx! Rousseau! Lenine! Mário Soares! Saramago! Leiam esses todos e mais alguns. Leiam sem cessar… Leiam até a Revolução bater à porta. Um de vocês será um Lenine ou um Mussolini, mas de qualquer maneira, tolerar este status quo é imperdoável.

O “ralhete” de Obama

Admitimos muitos disparates e verborreias despidas de sentido todos os dias. Que os nossos avós façam troça das nossas preferências políticas sem grande altercação, que um professor diga uma baboseira histórica de vez em quando, que tenhamos um Alberto João Jardim a brincar aos Ditadores Latinos 2011; mas há coisas que não admitimos (ou melhor, não devíamos admitir) que é uma lição moralista de um americano, pior, do Presidente que maior desapontou o mundo, o Presidente Obama. Barack Obama alega que a Europa está a impedir o crescimento económico americano e que estamos a ameaçar a economia global por incompetência.

Obama teve imensas oportunidades para se provar competente, contudo só emergiu vitorioso somente uma vez. Não fechou a Prisão de Guantanamo mas reforçou o contingente militar no Afeganistão; manteve as pessoas responsáveis pela Crise Subprime no seu gabinete (veja-se Larry Summers até muito recentemente – ver filme Inside Job) mas não advogou a perseguição aos culpados desta crise; não responsabilizou a BP quando a empresa fez um derrame brutal de petróleo no Golfo do México nem revogou o Patriot Act que torna os EUA numa ditadura federal (Lei esta que permite ao Governo interceptar qualquer comunicação dos civis e lê-la); assiste à crise diplomática entre a Palestina e Israel e decide, novamente, pela potência imperialista que é Israel; celebrou a morte de Bin Laden, desrespeitando qualquer dignidade humana intrínseca à condição de homo sapiens sapiens
e estando quase no final do seu mandato ainda não tirou o seu país do buraco económico-financeiro.

Ora, dada esta curta mas incompleta descrição, perguntar-me-ão se este senhor é o mesmo americano que, segundo alguns conceituados analistas, vociferava demagogicamente contra a desregulação e contra às brutais discrepâncias sociais nos EUA em 2008. Infelizmente é. Aliás, é o mesmo senhor que não demonstra qualquer iniciativa em derrubar o regime de Bashar Al-assad que já denunciei inúmeras vezes neste blogue. É o mesmo senhor que tinha a receita milagrosa para acabar com os problemas financeiros. Contudo, não a aplicou, os ricos tiveram de fazer uma petição para ser taxados já no final do mandato, e os custos militares continuam astronómicos.

Os EUA hoje estão fracos, estando a caminhar para perder a sua preponderância mundial, instaurando uma nova era global. Sem dúvidas que os processos retardantes da U.E e os seus dogmas ideológicos irão também ajudar a cavar o sepulcro da Grécia, Portugal e mesmo da Alemanha.

No entanto não nos preocupemos, porque em caso de falência geral da Europa, Obama deverá ter uma empresa de mercenários e um banco multinacional de solidezes financeiras AAA+++ para nos acompanhar no processo típico de “reestruturação politico-económica” do FMI.

Res publica

República, da palavra latina res publica, significa a coisa pública ou o bem comum. Desde a Grécia Antiga a etimologia de República tem sofrido as mais variadas alterações. A grande obra política de Platão, Politeia (πολιτεία), mal traduzida por Cícero para res publica e novamente pelos Renascentistas para República, significa forma de governo, estado ou cidadania. Contudo, apesar das ambiguidades etimológicas, a ideia de um estado comum que servisse toda a população ganhou destaque a partir da República Romana. O termo também pode ser analisado de outras perspectivas, nomeadamente por oposição à Monarquia. A República consagra um sistema em que os seus agentes são, de forma mais ou menos directa, eleitos por pelo menos uma parte da população. O termo foi também usado para designar Estados que fossem governados por conselhos de sábios ou poderosos (aristocracias), em que podia não haver qualquer tipo de eleição para chegar à elite governativa, podendo a ascensão ser feita por meio de dinheiro, nomeação ou mesmo hereditariedade. A introdução da palavra na língua inglesa deu origem à famosa Commonwealth, Regime Republicano de Oliver Cromwell, o Protectorado (1653–1659), que cunhava, essencialmente, a queda da monarquia inglesa. Em suma, a palavra República (a coisa pública), conceptualiza um sistema político e jurídico (o Estado) que exclui um governo monárquico hereditário por sangue e que visa alcançar o bem comum da população pertencente aos limites geográficos desse Estado.

No entanto, as diferentes sistematizações ideológicas de Estado, sociedade e cultura durante o século XIX e XX contribuíram para um vasto leque de ambiguidades e diferentes conceitos de Estado, de República e de bem comum. Do Fascismo ao Marxismo, do Mutualismo ao Titoísmo, da Democracia Cristã à Social-democracia podemos encontrar pelo menos duas concepções de bem comum. Para Karl Marx o bem comum corresponderia ao conforto material – advindo da centralização dos bens produzidos. Assim, a coisa pública seria um aparelho que visava empregar a população e produzir e distribuir equitativamente os bens, atingindo a prosperidade material. Por outro lado, o Nazismo subordinava a economia e o bem-estar da população à agenda política e ideológica, que consagrava como prioridade germanizar a Europa, ou seja, pôr em prática o racismo, a eugenia, o anti-semitismo, o belicismo e torná-los o pilar da nova Europa. Portanto, não foi de estranhar que a racionalização dos bens, o dirigismo económico e a transformação do Terceiro Reich numa economia de guerra não fossem obstáculos à condução do ideário nazi. Era essa a prioridade do nacional-socialismo, era esse o bem comum pelo qual Hitler e o Estado Nazi lutavam. A coisa pública era a exaltação imaculada da Alemanha no Mundo.

Os tempos mudaram e a Europa pós-guerra tendeu para o Estado social e materialista. Da esquerda à direita, houve um consenso ditando que o Estado teria como função edificar uma sociedade materialmente próspera, uma vez que era este o desejo primordial das populações. No entanto, este Estado providência tem sido desmantelado pela desregularão dos mercados, pela privatização de empresas públicas e pela minimização da sua intervenção nos sectores sociais e económicos da governação. Hoje o nosso Estado social colapsou: a estagnação económica de Portugal, o aumento da esperança média de vida, o desemprego e a deslocação dos centros de decisão económico-financeira para a Ásia e América Latina, foram factores decisivos para por em cheque o modelo europeu de sociedade. Surge então a necessidade vital de debater a importância e a definição dos papéis do Estado. Será que a coisa pública, isto é, os serviços públicos que almejam o bem comum terão que ser transferidos para a sociedade, privatizando-os? Será que teremos serviços públicos a mais? Ou será uma discussão já por si oblíqua, já que não vai às questões centrais como inépcia política em racionalizar e rentabilizar os recursos já existentes, o sistema fiscal incapaz ou à rápida degradação científica, técnica e económica das empresas europeias (veja-se como a Nokia perdeu a guerra pelos Smartphones)?

A problemática aqui lançada está patente na recente discussão sobre o endividamento entre Republicanos e Democratas. O Presidente Obama, juntamente com os Democratas, garantem que irão cortar nas despesas ou na célebre “gordura” do Estado, mas em contrapartida pretende aumentar os impostos nos lucros e dividendos milionários. Na outra barricada, os Republicanos, nomeadamente o Tea Boston Party, recusa-se surdamente a subir qualquer tipo de imposto, impondo como solução o corte na MediCare e MediAid, as recém conquistas de Obama. Os Democratas tentam conciliar o aumento da receita e a diminuição da despesa, contudo, os Republicanos, na sua maioria, fecham-se no dogma ideológico de deixar os rendimentos altos incólumes. Situação parecida assistiu-se em Portugal. O Parlamento aprovou uma sobretaxa extraordinária sobre o subsídio de Natal e no IRS, ignorando por completo os lucros, acções e obrigações que distribuem dividendos. Porém, o financiamento do nosso modelo social não se esgota no ajuste da despesa e dos impostos. As empresas públicas assumem um grande destaque nesta batalha pela sustentabilidade do Estado, nomeadamente porque são altamente deficitárias mas porque também são outro impasse ideológico dos partidos. O actual Governo, de coligação PSD/CDS, liderado por Pedro Passos Coelho, será um pródigo filho da liberalização excessiva dos mercados se avançar com as inúmeras privatizações que tem em mente (curioso como temos de agradecer a Paulo Portas o adiamento da discussão sobre a privatização da RTP). Na calha encontram-se as privatizações da PT, EDP, Galp, CTT, ANA, CP, Metro de Lisboa e Porto, REFER, Carris e Águas de Portugal. São todos sectores estratégicos, quase todos monopólios naturais e metade teve lucros nos últimos anos. De um lado, a direita na sua generalidade, argumenta que a privatização levará a um melhor serviço público, uma vez que passará a ser gerida pelos privados que só querem lucrar. Vejamos o caso da Galp. Esta empresa tem sido alienada por fases para melhorar a competitividade do mercado. Portanto, seria expectável que tirando os impostos não houvesse grande desvio da média de preços praticados na União Europeia. Pelo contrário, a Galp é a que cobra mais, assim como a EDP. Privatizou-se a EDP e por isso o Estado teve de ceder aos interesses privados que agora são sócios da empresa. Esta situação mostra-se problemática porque a factura energética é enorme em Portugal, sendo que são mais que 30% dos custos das PMEs mas o Grupo EDP apresenta orgulhosamente mil milhões de lucros em 2010. Do outro lado, em Portugal, temos uma esquerda dividida em radicais surdos que desconhecem o conceito de sustentabilidade financeira e em socialistas que subscrevem estas soluções por inteiro.

Ora, abastecimento de combustível, electricidade, águas, transportes, correio e telecomunicações não são sectores estratégicos? Facilmente me convencerão que a PT está no mercado com outras empresas e por isso faz sentido privatizá-la, contudo, deverão ser privatizados monopólios naturais que prestem um serviço vital e que têm um impacto social e económico positivos? Não é isso sintoma grave de uma política medíocre que em vez de arrasar com os lobbies económico-financeiros prefere assobiar para o lado, atirando para fora tudo aquilo que a pode corromper? Não será esta política apolítica? Já que se recusa a administrar partes essenciais da vida em comunidade como os sectores estratégicos? Não seria mais inteligente fazer uma razia nestas empresas públicas endividadas e deficitárias, tornando-as eficientes, sustentáveis e equilibradas? Se uma empresa privada consegue porque é o que o Estado não consegue? Esta solução não se coloca porque não há vontade política de dizer “NÃO!” ao clientelismo e à promiscuidade entre o público e o privado. E aqueles serviços que pela sua natureza não podem a curto-prazo ser sustentáveis por si mesmos, podem ser perfeitamente capitalizados pelo Estado. Cortar ainda mais na despesa do Estado é possível como taxar as mais-valias urbanísticas, tributar acções, obrigações e dividendos, já para não falar em renegociar as atrozes Parcerias Público-Privadas.

Em suma, a coisa pública, deve ser um aparelho flexível e adaptado à realidade nacional mas nunca esquecendo que os sectores estratégicos (águas, energia e transportes) constituem a rampa de lançamento para qualquer PME. Rejeito por completo, e de forma categórica, qualquer diminuição da presença do Estado na saúde e na educação como na segurança social. Seria um retrocesso civilizacional brutal. Devemos sim arrecadar o dinheiro para tornar os nossos sistemas de educação e saúde gratuitos, dotando-os de grande qualidade e eficiência como nos países mais avançados da Europa. Para além disso, o Estado deve tentar absorver o sector privado da saúde e limitar o financiamento a escolas privadas, senão mesmo acabar com ele. São de demasiada importância para serem guiados pelo princípio da liberdade de mercados ou da obtenção de lucros. Infelizmente, uma resposta a nível europeu e global tem de existir para que a pressão lobbysta cesse e se possa de facto cumprir com a construção do Estado providência europeu. A resposta tem de ser nacional, num esforço de coordenação internacional, contra as agendas sectoriais para valer de facto o único objectivo da res pública – o bem comum.

PS: Se algum leitor achar  que um aspecto mais em particular devia ser abordado peço me notifique ou contribua ele próprio, uma vez que o artigo já é bastante comprido.

A cara da Austeridade

Não vale a pena escrever um artigo analítico sobre a austeridade e as crises na Europa. Como diria Álvaro de Campos o cansaço cansa. Dói-me quando vejo estas imagens, quando me apercebo que a Austeridade se tornou na nova Igreja Católica ou no novo Império Britânico a defender. Dói-me porque as pessoas não se amam, não se tocam, não se sentem. Corrói-me sabendo que muitos aceitam esta situação acriticamente.

Esta é a única cara da Austeridade, não se iludam.

Tendências Sádicas – Parte II


Underlings… a pior espécie de homem. Seria este o tópico da segunda parte das Tendências Sádicas. Mas encontrei este manifesto, que por sinal já tem 100.000 assinantes – Manifesto Em Defesa da Festa Brava – que, muito sinceramente, enojou.

Este manifesto, assinado sim por “hordas de analfabetos”, incorre em inúmeras falácias: do Apelo à Autoridade, Ad Hominen, Ad Ignorantium, Ad Misericordiam, Falsa Causa, do Modus Ponens, da Derrapagem, da Composição. Assim sendo, parece-me evidente a falta de plausibilidade deste argumento, porém, vou escrutinar falácia a falácia, refutar a ignomínia que o Dtº Francisco Moita Flores lança sobre os grupos activista, desmascarar o conhecimento histórico que mostra como incontornável e considerar inválido os poucos argumentos que apresenta.

Falácia de Apelo à Autoridade e Ad Misericordiam

O autor deste manifesto apresenta-se como o modelo de bom português. É Chefe de família, tem vida social activa de escritor, foi o Inspector implacável e é Presidente de Câmara louvado pelos seus munícipes. Para além disso é melhor que o ordinário português – é franciscano. Da sua história de vida, Francisco Moita Flores vai inferir 3 premissas que lhe vão permitir afirmar erradamente que é a pessoa adequada para falar deste assunto. Numa primeira instância afirma que é um português rural, mas pergunto agora: qual é a relevância desse dado para a argumentação que faz? Qual é a diferença entre o português rural e o português citadino, a diferença que permita de facto, racionalmente afirmar que um português rural conhece melhor as dinâmicas “psico-afectivas” humanas que os citadinos. Aliás, usa-se de Roland Barthes, que terá tido contacto muito provavelmente na cidade uma vez que foi nesses ambiente que obteve os estudos mais avançados. Por outro lado, as estatísticas dizem-nos que o português citadino terá acesso a mais instrução, melhor educação por parte dos pais e por parte da escola. Assim, pelas palavras de Moita Flores só se justifica racionalmente o campo segundo a óptica de quem vive faz trabalho académico no espaço urbano mas, apesar disso, dá destaque a uma questão desprovida de sentido e conteúdo como a relação que teve e tem com o campo durante a sua vida.
O presidente da câmara apresenta-se também como alguém que compreende intrinsecamente a emoção e o sentimento humano. O “sofrimento mais pungente” que testemunhou é base para as afirmações que neste manifesto profere. Ora, um olhar atento sobre esta passagem vai revelar certamente uma Falácia Ad Misericordiam discreta sem dúvida mas presente. Dá como prova da sua credulidade a miséria humana que certamente assistiu, no entanto, é inevitável a invalidade desta premissa. Partido deste sofrimento, Moita Flores assume-se como um franciscano, devoto do seu santo, S. Francisco de Assis, patrono dos animais e da Terra. Novamente, a não ser que vá proceder a uma análise racional das touradas e do seu enquadramento segundo um sistema de valores éticos (uma vez que afirma ter um – o da Ordem dos Franciscanos) esta referência mostra-se desnecessária e irrelevante.
O autor do manifesto socorre-se, logo nas primeiras linhas, de uma argumentação que apela à empatia pelo seu percurso biográfico e não por uma visão crítica e assertiva sobre o assunto. Para além disso, quando submete algum elemento deste manifesto ao crivo racional, este acaba por nem ser plausível nem válido.

Falácia da Falsa Causa

Moita Flores consegue cometer as maiores atrocidades ao estudo da História. Serve-se da retrospectiva para uma única só posição: sempre foi assim e por isso deve continuar a ser assim. O “aficionado” faz uma breve descrição, passando competentemente pelas civilizações mais importantes, em que destaca o “enredo taurino” como parte do “psicodrama essencial do homem”, numa “dimensão trágica”. Ora, Moita Flores mostra-se, primeiro que tudo, uma pessoa das modas. O uso de vocabulário específico, num manifesto que se auto-denomina como petição pública, dá um tom jocoso ao texto, uma vez que as posições expressas não escrutináveis pelo público comum. Porém, a situação agrava-se quando o autor tenta incutir uma lição muito mal dada da História.
Proponho que façamos um exercício. Proponho ao leitor que pense em duas vitórias da humanidade e dos seus direitos durante o século XX. Agora que reflicta sobre as circunstâncias que permitiram a conquista desses direitos e a evolução do seu contexto desde a Grécia Antiga. Ora, o homem foi cidadão em Atenas e em Roma, servo, vassalo, súbdito, cidadão, súbdito outra vez e hoje cidadão. Pergunto-me se Jean Paule-Sartre terá olhado para a propaganda fascista ou nazi. Terá ele dogmaticamente aceite aquele exemplo de cidadania, vergada ao totalitarismo? Terá ele dito aos seus compatriotas franceses: – Não lutai por condições de vida, de trabalhos, direitos inalienáveis porque somos instrumentos do Estado -? Parece-me que o existencialista francês soube fazer uma análise inteligente da história e proceder à triagem necessária. Ora, Moita Flores, pelo contrário, absorve tudo e aceita tudo como verdadeiro sem se quer expor uma tese válida assente nestes factos históricos. Acredita sim no conservadorismo e que as tradições e costumes devem ser preservados em nome da estabilidade socioafectiva do homem. Pelo contrário, seres humanos que se deleitem ao assistir ao sofrimento de um animal claramente têm eles problemas do foro psicológico e deviam ser tratados, contudo, isso não é justificação para se manterem tradições absurdas e atrozes.

Falácia da Composição, Ad Ignorantium e da Derrapagem

    Moita Flores num só parágrafo consegue destituir a sua argumentação de toda a plausibilidade e racionalidade. As hostes abrem-se com uma Falácia da Composição: num acto de séria ignorância Moita Flores mistura militantes de diversas causas, umas reconhecidas internacionalmente como a do Lince Ibérico e da Água, outras mais localmente como a defesa do lobo ou a luta pela abolição das touradas. Esta ignorância orgulhosa culmina com a afirmação que estes movimentos não respeitam nem a mãe da natureza nem a humanidade. Pergunto ao senhor presidente da câmara como é que ele fundamenta estas afirmações graves e quase sem precedentes. Não apresenta nem um. Prefere somente atirar um chorrilho de infâmias e desconsiderações sem qualquer tipo de sentido ou pertinência.
No entanto, em duas frases, Moita Flores as suas verdadeiras intenções. Não pretende discutir realmente a problemática das touradas. Resume-se tudo a uma questão de fé. Relega para segundo lugar qualquer tipo de argumentação convincente, criando uma barreira entre o bom rural português e o morto vivo da “horda de analfabetos”. Na verdade, Moita Flores não pretende angariar militantes para a sua causa, quer sim aumentar o fosso entre os dois lados, impedindo uma solução consensual, o diálogo interno, a reflexão. Ao desconsiderar por completo a argumentação, afirmando peremptoriamente que qualquer ateu não poderá compreender as touradas, Moita Flores visa somente prolongar uma guerra sem justificação, para poder emergir como o lutador celestial da defesa dos direitos ancestrais do homem. Acusa de fundamentalismo
aqueles que protestam, que estão abertos aos diálogos e que não se escondem atrás de petições online ou de pretensos axiomas religiosos.
Parágrafo falacioso atrás de parágrafo falacioso, Moita Flores, mesmo assim, acredita que é numa argumentação barata e imprecisa que vai assentar a sua posição. Muito bem, continuemos a analisar. A seguir aos prenúncios dogmáticos, o autor afirma histericamente, numa gradação crescente e despropositada, que quem luta contra as touradas é, com efeito, um hipócrita porque não luta contra a violência doméstica. Sentindo-se impotente para persuadir o leitor, Moita Flores recorre à Falácia da Derrapagem. O autor enumera as batalhas em que estes movimentos deviam fazer parte. De repente aqueles que lutam pelo Lince Ibérico também deviam estar na luta contra a violência doméstica e até na luta contra a guerra. Pergunto ao Dto. Moita Flores então se não quer ser Presidente de todas as Câmaras Municipais de Portugal, para lutar em todas as frentes? Ou se calhar voltar à P.J para combater numa frente mais interessante? Estas afirmações são despropositadas e para quem alega defender a liberdade do homem e da terra mostra uma hipocrisia assente nos interesses próprios e não num diálogo franco e razoável. Esta ingerência na agenda de outros movimentos é inadmissível e antidemocrática.

Falácia Ad Hominen e de Modus Ponens

    Moita Flores é entediante. Nos parágrafos finais já nem tenta esconder a sua insolúvel raiva, apesar de se chamar um tolerante e liberal. Insulta declaradamente os seus adversários. “Horda de analfabetos”, “angustiados”, “talibãs” revelando displicência por aqueles que foram de facto vítimas dos actos terroristas dos talibãs. É escusado averiguar mais esta questão, o social-democrata prefere uma Falácia Ad Hominen a qualquer outro tipo de discurso.
Porém, é curioso ver como a sucessão de afirmações falaciosas culmina na tentativa bárbara de argumentação que, por sua vez, é também falaciosa. Vejamos este caso flagrante de uma Falácia de Modus Ponens.

“(…) que só é possível salvar os Direitos do Homem se com eles salvarmos os Direitos da Terra. É a minha crença profunda. E sei que o combate passa por afirmar a defesa dos símbolos, dos valores, dos ritos, das cargas simbólicas que consolidaram a nossa secular matriz identitária.”

A – Salvar os Direitos da Terra
B – Salvar os Direitos do Homem (O combate passa por afirmar a defesa dos símbolos, dos valores, dos ritos, das cargas simbólicas que consolidaram a nossa secular matriz identitária)

A formalização deste argumento é o seguinte:

A => B
B
————-
A

Ora, qualquer pessoa com um mínimo de formação lógica sabe que a afirmação do consequente (B) não obriga em caso algum a verdade e a ocorrência do antecedente (A). Com efeito, o que Moita Flores esconde e tenta encapotar é que para ele a defesa Direitos da Terra não são uma causa obrigatória para a defesa dos direitos do homem, senão teria enumerado os direitos da natureza e não, como fez, dizer que o combate passa, novamente, pelos direitos do homem.

Conclusão

A validez deste manifesto está claramente posta em causa. Assim sendo, parece-me completamente disparatado classificar este manifesto como alguma tentativa de persuasão real da condição moral e aceitável da “Festa Brava”. Pelo contrário, é uma marcação de posição de guerra, de um dogmatismo ingénuo e insuflado que acabará nas ruas da amargura. Por outro lado, Moita Flores revela uma ignorância brutal quanto aos fenómenos de êxodo rural (a segunda fase deste movimento ocorreu dentro do interior: as populações deslocalizaram-se das aldeias para as capitais de distrito), esquecendo que é na cidade que se dá a tourada, o mesmo poço de “radicalismos” e decadência.
Este manifesto é prova que a luta pelos direitos dos animais não está ganha, que na outra barricada reside sim uma “horda de analfabetos”, fundamentalistas da fé, preconceituosos que não querem de maneira alguma argumentar mas sim preservar ancestralidade obsoletas e imorais. O paradigma tem de mudar e conto com os meus leitores!

O uso de animais em experiências científicas

   A ciência e a técnica afirmaram-se como pilares fundamentais das sociedades modernas a partir da Revolução Industrial. Assim sendo, foi necessário procurar princípios éticos que regulassem a actividade científica, salvaguardando a dignidade humana e animal, estabelecendo o que é moralmente aceitável ou não durante uma experiência científica. No entanto, esta relação não tem gerado consenso. A evolução da técnica tem proporcionado grande bem-estar material às sociedades contemporâneas, mesmo que isso envolva – e seja de conhecimento público – o sofrimento humano e animal.

   Será eticamente aceitável submeter animais a experiências científicas? O argumento a favor mais significativo é baseado no especicismo – atribuição de valores e direitos diferentes consoante a espécie. O especicismo assenta na presunção que os seres auto-conscientes e racionais, isto é, a espécie humana, têm os seus interesses valorizados em detrimento dos interesses animais. Portanto, segundo uma ética utilitarista, é aceitável o uso de animais em experiências científicas se o resultado contribuir para a felicidade e/ou diminuição do sofrimento humanos. No entanto, há, também segundo a ética utilitarista, um argumento contra o especicismo. Este argumento tem como base o princípio da consideração igual de interesses. Este princípio afirma que não é no critério da racionalidade ou da auto-consciência em que se deve basear a ponderação moral mas sim na condição de senciência, ou seja, na capacidade de sofrer ou sentir prazer ou felicidade. Portanto, a deliberação moral tem de ter em conta o potencial sofrimento ou prazer dos animais ao mesmo nível que os da espécie humana. Deste modo, torna-se inaceitável o uso de animais em experiências científicas que visem somente satisfazer a humanidade. Porém, também são salvaguardados os interesses humanos, isto é, se existisse uma hipótese científica que trouxesse uma vacina revolucionária, seria aceitável submeter animais à sua experiência se não houvesse alternativa.

   O princípio da igual consideração de interesses parece ser o mais plausível uma vez que, se aplicado, reduziria brutalmente o sofrimento no globo sem prejudicar a investigação científica sobre doenças humanas. Porém, seria necessária uma mudança drástica de hábitos, deixando aqueles que apesar de proporcionarem prazer ao homem , envolvem o sofrimento de biliões de animais.

Tendências Sádicas – Parte I

Tendências Sádicas – I

Quantos de nós já se deleitaram com a humilhação de outro? Atiraram-se à emotividade (alguns a planos maquiavélicos) e despertaram em si uma vontade sádica; uma necessidade de colocar os outros em situações de sofrimento, de humilhação, enfim: de dor. Não é o meu propósito, de maneira alguma, estar a debitar teses incoerentes e vagas sobre Sadismo ou das causas psicológicas que o levam a manifestar-se em cada um de nós. As Tendências Sádicas surgiram em jeito de construir uma ponte entre um Sadismo manifesto e um Sadismo Social incosciente, ligado a uma verdadeira Sociofagia sem remorso.

Todos nós consumimos seres humanos. Sejamos francos, os nossos telemóveis têm volfrâmio, ouro, cobre, prata e mais uma quantidade de minerais infindável. Quem é que os traz? São uns pobres desgraçados nas minas na África Central, em países como o Congo, em que são escravos. O resto trabalha nas poucas minas do Mundo Ocidental, vão para casa aos 50 anos, com diversos cancros e pulmões que também parecem mais minério que outra coisa, não esquecendo os seguros de saúde miseráveis. E a verdade é que não queremos saber.

Em si não é algo Sádico, mas todos nós consumimos sofrimento de um ser humano. Não é o suor, não é o trabalho. É o sofrimento humano. Agora multipliquemos por mil, dez mil, cem mil, enfim por todas as lágrimas derramadas. Infelizmente, é este o nosso legado. Nós, Ocidentais, grandes democratas, guardiães dos enclaves magistrais da defesa dos direitos humanos somos quem mais faz os outros sofrer. Mais que qualquer Senhor da Droga ou da Guerra, Latino, Africano ou Asiático. Conciliamos esta nossa face progressista e iluminada com o descaramento mórbido. Exploramo-los para satisfazer as nossas ambições materiais desmesuradas, de seguida fazemos reportagens e denúncias num espanto hipócrita nunca esquecendo os lucros que daí advêm.

Isto não é tudo. Olhemos para os BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), destes quatro só o Brasil fez progressos notáveis em todos os campos; a Rússia mudou de comunismo para uma oligarquia mafiosa. Aliás o Governo não está tomado pela Máfia, o Governo é a Máfia; a Índia continua num sistema de castas ancestral e pratica verdadeiras atrocidades sociais; finalmente, a China é um monstro ideológico tal que nem me vou debruçar sobre ela. O que têm comum estes três últimos países e mais uns quantos latinos, asiáticos e africanos? Estão tomados por elites oligarcas. Eles praticam o modelo ocidental à sua escala. Importaram a Coca-Cola, a Louis Vuitton e, claro, o Sadismo. Mas há que reconhecer um dos seus méritos. Foram ainda mais sádicos que nós todos. Exploram os seus compatriotas e destroem as economias Ocidentais que ainda não tinham atingido essa vontade voraz de engolir o Mundo. De tal maneira que nós temos de negociar com estes países que nem sequer promovem liberdades individuais básicas.

Portanto, a prática deste ciclo vicioso ultrapassou fronteiras. É nesse estado em que nos encontramos. Os Nacionalismos ressurgiram na Europa, em resposta à falta de aproveitamento europeu da globalização da Sociofagia. Autolegitimamo-nos afirmando que temos uma cultura de séculos e que na Europa existem as melhores práticas da liberdade, desenvolvimento e progresso. Mas para manter este estatuto teremos de subordinar o resto do Mundo. Não foi isso que Hitler fez? Que o Império Romano fez? Que os EUA têm feito e ainda fazem? Não criticamos esses todos? Não os apelidamos de Imperialistas, Neo-Colonialistas, Fascistas, Tiranos e montes-de-palavrões sem sentido algum? E o que é que nós Europeus, em particular Portugueses, no nosso púlpito da, desgraça, culpados de uma crise “alheia” somos?

Basta ter visto a matiné histórica passada.

Sádicos.

1º de Maio, 2011

João Quartilho

%d bloggers like this: