Category Archives: Educação

A última palavra

    São vários os que querem ficar com a última palavra, uns com mais legitimidade, outros nem por isso, acabam os três por se denegrir na actuação pública e

  1.  A FENPROF (Federação Nacional de Professores), liderada por Mário Nogueira, membro da CGTP, decidiu novamente adoptar a sua agenda reivindicativa, traiçoeira e dissidente. Hoje, declarou-se oficialmente contra a Revisão da Estrutura Curricular, posta à discussão pública durante cerca de um mês e meio. Para além do mais, exigiu a imediata suspensão do processo e a sua anulação. Ora, tal acção mostra o completo desprezo que a FENPROF tem pelas normas democráticas. Depois de receber quase 900 contributos por escrito, mais ainda os inúmeros Directores, Associações e Sindicatos que conferenciaram com o Ministério e/ou com a Comissão da Educação na Assembleia da República, a FENPROF acha-se omnipotente para que no último dia de consulta pública – hoje – venha emitir declarações elementares que já tinham sido proferidas informalmente há um mês pelo próprio Mário Nogueira. Esta deslealdade democrática é sintomática da agenda revanchista dos Comunistas que nunca perdoaram a «contra-revolução fascisto-burguesa» em Portugal.

  2.  No artigo anterior, afirmei que Portugal enfrentava hoje uma transição democrática idiossincrática. Tal situação foi propulsionada pela impertinente ubiquidade de António José Seguro. A acção política do líder socialista tem sido de sistematicamente de vir a público e comentar de tudo um pouco. Resultado? Afirmações bacocas, ao reboque de outros políticos, normalmente já com dois a três dias de atraso, culminando sempre em discursos redundantes. João Galamba, deputado socialista que tem feito uma oposição digna do maior partido de oposição, tem, por exemplo, mais pertinência e mais rigor naquilo que diz. Porque é que Seguro insiste em ter a última palavra? Por dois grandes motivos. Primeiro porque está comprometido com o Memorando de entendimento entre o Estado Português, PS, PSD e CDS com a Troika (CE,BCE,FMI). Tal situação  diminui em muito o leque de escolhas de Seguro, logo necessita de conciliar «os valores» do PS com a actuação política de Sócrates, tentando passar pelos pingos da chuva sem protagonismo político. Segundo, porque não demonstrou ainda ter um projecto governativo alternativo, capaz de subverter a actual situação através de outras medidas que não a austeridade lunática. Para tal seria preciso olhar para Portugal e para a Europa em simultâneo, tal mundividência só vejo no incasável Mário Soares. Até há quem diga que de oposição séria e construtiva já só há o pobre (em muitos sentidos ao que parece) Presidente da República.

  3.  A Chanceler Alemã oficializou as suas pretensões expansionistas. O Reich irá posicionar (ou pelo menos tentar) os seus fanáticos da Schutzstaffel Orçamentais no Athensbunker. A partir de lá, o Orçamento Grego terá uma só função: reencaminhar todo o dinheiro para os Estados e bancos credores. A prioridade será saldar as dívidas gregas, mesmo que isso arraste a Grécia para uma recessão sem fim que não vai nada mais que diminuir as receitas dos Estado grego e prolongar a Großdeutschland ou Vierte Reich. Assim, Berlim tem sempre a última palavra ao transmutar as soberanias nacionais em tutelas alemãs. Berlim também pondera montar postos avançados de batimento de terreno em Lisboa, Madrid e Roma, para que os kapos locais se mantenham disciplinados e continuem com os seus programas de holocausto económico. Entretanto no centro da Europa, a Führer alemã, montou já o governo de fachada Vichy-Sarkozy, na medida em que o Presidente francês vai a reboque do blitzkrieg orçamental da Alemanha, preterindo qualquer inovação política sua. Tal como na década de 40, o Reino Unido e a Europa Continental dissidem brutalmente, sendo o projecto de homogeneização orçamental da Alemanha – o Lebensraum – o âmago da discórdia. Felizmente os Führers e Duces não sobreviveram à voragem do tempo.

A praga do Eduquês

   Lembro-me de um momento ímpar na televisão portuguesa. O deputado ressabiado João Galamba do PS e o cronista do Expresso e ex-dirigente do Bloco de Esquerda, Daniel Oliveira, associaram-se para apelidar o Ministro da Educação e Ciência como talibã da educação, aquando da formação de governo. Ambos descreveram o pensamento de Crato como reaccionário, antiquado, vinculado à política de educação do Estado Novo mas redesenhada para servir os interesses do Neo-liberalismo. Segundo os mesmos, Crato advoga uma escola de autómatos, aspira somente satisfazer as necessidades de mercado de emprego e ignora a problemática da cidadania e do humanismo.

   Um observador atento e crítico (apanágios que infelizmente não caracterizam os senhores citados) perguntar-se-iam primeiro pelo motivo de tanto veneno, de tanta raiva conduzida contra Nuno Crato. Este facto alicerça-se no  profundo e inquebrantável dogmatismo que tem sido a ideologia dominante na pedagogia portuguesa das últimas décadas. Estes “pedagogos” românticos e construtivistas elaboraram uma mixórdia (digo mixórdia porque o pensamento expresso está longe de estar organizado e sistematizado).

   A pedagogia romântica e construtivista evoca a Teoria da Recapitulação Ontofilogenética (lei científica que afirma que o desenvolvimento do embrião repete o desenvolvimento evolucionário da espécie a qual pertence passando por etapas que se assemelham aos seus ancestrais na fase adulta), transpondo-a para o desenvolvimento emocional e cognitivo da criança. Assim, defendem que a criança irá recapitular as fases de evolução científica e humanística durante o seu crescimento. Um dos defensores desta teoria, Agostinha da Silva, dizia:

“[…] da criança nada há a exigir senão que se desenvolva segundo o seu ritmo e toda a interferência tiranizante do indivíduo adulto, que vive conforme um ritmo completamente diverso, não lhe pode ser senão prejudicial;”

    O que seria de nós hoje se Galileu, Copérnico, Darwin ou Freud não tivessem tido instruções escolares? Um documento oficial que apoiava firmemente esta tese era o Currículo Nacional do Ensino Básico: Competências Essenciais que era um colectânea de afirmações vagas, imprecisas, nada científicas, que bem podiam integrar um curso de fotografia ou de gestão. Felizmente foi revogado, e o programa de cada disciplina é hoje hegemónico e autónomo, livre destes constrangimentos ideológicos.

    Ainda dentro desta teoria afirma-se que a memorização e a automatização de alguns raciocínios devem ser preteridas, dado que isso não contribui para a resolução de problemas práticos da criança. Para além disso, estes pedagogos reafirmam a necessidade da criança compreender a utilidade de tudo o que aprende, e caso não o puder, tal conhecimento não lhe deve ser ensinado. Apenso a este paradigma inclui-se um desprezo pelo raciocínio abstracto e teórico, em prole de um concreto e localizado. Os pedagogos românticos justificam as suas escolhas na medida em que promovem as competências como a capacidade crítica, em detrimento da retenção de conteúdos e conhecimentos.

        “O papel do professor não é pois de transmitir ideias feitas aos alunos mas de os ajudar, através das tarefas apresentadas, a construir os seus próprios conhecimentos. […] Sendo assim, o professor deverá respeitar sempre a opinião do aluno e, mesmo quando esta é incorrecta, evitará emitir sobre esta um juízo de valor.”

   Então se o aluno chegar a conclusões erradas não deve ser corrigido? Desde quando é que existe uma Matemática, uma História, uma Gramática para cada aluno? De que maneira é que isto contribui para a comunicação e compreensão da realidade exterior?

        “A aprendizagem da simbologia escrita deve ser feita depois de efectuada a compreensão oral dos problemas […].”

   A segunda afirmação é amplamente condenada por professores e psicólogos que compreendem a necessidade de introduzir a simbologia como meio para a resolução dos mais variados tipos de problemas. Alunos que aprendam com laranjas e pauzinhos a fazer contas têm posteriormente mais dificuldade noutros raciocínios mais elaborados do que aqueles que aprenderam de imediato com a simbologia numérica. Outra objecção colocada é de que a interiorização de conhecimentos ou «ideias feitas» não contribui para o desenvolvimento do aluno. Pelo contrário! Estes pedagogos que têm um grande amor pela capacidade crítica desprezam-na efectivamente ao pensar que esta é manuseável no vazio. Citando Karl Popper:

        “[…] a verdade é que não pode haver uma fase crítica sem uma fase dogmática precedente, uma fase em que algo se forma – uma expectativa, uma regularidade, um comportamento –, de tal maneira que se possa começar a trabalhar na eliminação do erro.”

   Pretende-se formar sofistas bacocos, vazios de qualquer ideia! De que maneira é que alguém poderia ser crítico quanto à implantação da República se não dominasse as «ideias feitas» como liberalismo, parlamentarismo, jacobinismo, sidonismo, entre outros? O mesmo se passa na matemática. Que seria dos nossos estudantes se estes tivessem de descobrir por si próprios o teorema de Pitágoras ou sistema de Eixos Cartesiano. Esta pedagogia advoga as “narrativas matemáticas”, “matemática em contexto” (métodos que eliminam por completo o ensino abstracto e generalizante), culminado nuns radicais que querem substituir a Matemática pela Educação Matemática. Veja-se alguns dos seus escritos.

        “[…] a ênfase na Matemática escolar deve ser colocado [sic] na educação matemática (dos jovens) e não no ensino de (elementos de) Matemática.”

        “[…] a disciplina de Matemática deve ser eliminada dos currículos do ensino básico. […] Seja criada a disciplina de educação matemática […] o essencial da disciplina não será a Matemática mas o seu uso.”

   Ora, vemos bem as consequências perigosas destes raciocínios. Poderiam destruir uma geração inteira de alunos, que ficaria depauperada de capacidades abstractas, teóricas e generalizantes, essenciais para as aprendizagens futuras. Se a isto juntarmos o desdém pela aprendizagem de automatismos (como ler, escrever, contar e tantos outros) a educação estaria destruída em Portugal.

   É com prazer que vejo que o Nuno Crato está a implementar as mudanças que defendeu em variados programas, intervenções e livros. As disciplinas essenciais saíram reforçadas, as áreas não-curriculares irão desaparecer, os exames manter-se-ão mas com mais exigência (reformulação total do GAVE) e incidindo em mais anos de escolaridade, os conteúdos voltarão a ser preponderantes por relação às competências e as escolas terão mais liberdade e autonomia para adaptarem a sua realidade pedagógica às necessidades dos educandos. Ainda assim existem uns quantos que em vez de reflectirem preferem vociferar e nada propor para melhorar. Como o ditado diz, os cães ladram e a caravana passa.

Cadernos Históricos: Marx e o Materialismo Histórico

Depois de um mês de intenso trabalho para o Parlamento Europeu dos Jovens e para o Jornal Moderno, venho aqui colocar o meu contributo. Desfrutem. ( Peço desculpa mas parece ser impossível colocar um texto em justificado)

Proletários de todo o mundo, Uni-vos!

Karl Heinrich Marx foi sem dúvida um dos grandes pensadores do século XIX, deixando um enorme legado político inaugurado em 1917 com a Revolução Bolchevique. Nasceu em 5 de Maio de 1818 na pitoresca cidade de Tréveris na Alemanha no seio de uma família judaica abastada. Iniciou um curso de Direito em Bonn, que continuaria em Berlim, mas não lhe daria a atenção necessária – preferia a filosofia, a história e a literatura. Desde cedo interessou-se pela filosofia hegeliana (G.W.F. Hegel 1770-1831), nomeadamente pela sua dialéctica idealista. Esta teoria visava explicar o desenvolvimento humano através de três fases: a da tese, a da antítese e a da síntese. Com efeito, a história humana desenrola-se a partir de uma tese intelectual que se propõe. Posteriormente, esta é contraposta por outra tese antagónica. Este impasse é resolvido pela conciliação das premissas em comum formando-se uma síntese que seria a próxima tese. Marx adoptou a metodologia hegeliana das três fases mas rejeitou que a evolução humana fosse prescrita por teses ou ideias. Em alternativa, propôs que a construção de um novo paradigma (a síntese) fosse provocada pelas enormes contradições dentro de um sistema político-económico (princípio materialista). Marx criticava Hegel, afirmando: A ideia não é nada mais do queo mundo material reflectido pela mente humana, e traduzido em formas de pensamento”. Assim, Marx aplicando a metodologia hegeliana sob o princípio materialista elabora o materialismo dialéctico, mostrando a preponderância das relações económicas dentro de uma sociedade. A partir desta teoria vai induzir uma abordagem científica à história humana chamada o materialismo histórico, perfazendo um total de 6 fases históricas, sendo que as duas últimas eram previsões de Marx. Sucintamente, o materialismo histórico estipula que o progresso humano é desencadeado pela luta de classes, culminando cada fase histórica com a substituição da classe dominante por outra. A primeira, largamente desenvolvida por Engels em A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, é a do Tribalismo ou Comunismo Primitivo. Engels imaginou que durante os primórdios da humanidade a produção era escassa, possibilitando fracas hipóteses de sobrevivência às tribos humanas. Assim, as tribos esforçavam-se equitativamente para obterem a sua comida, distribuindo-a de igual modo, verificando-se a ausência de propriedade privada e de classes económicas. No entanto, a amenização das condições geofísicas e a prática da agricultura, através da sedentarização, permitiu a transição de tribos para comunidades fixas. Assim sendo, surgiu a necessidade de dirigir a economia e o comércio florescentes, brotando uma classe dirigente e intelectual na comunidade, esboçando-se o primeiro modelo de Estado e de propriedade privada. Esta classe apoderou-se dos excedentes de produção e dedicou-se às actividades não-produtivas, Este período transitório deu azo à alteração das relações sociais (relações de produção) em que a exploração do trabalhador era legitimada pelo nascimento do conceito de propriedade privada (detinham os meios-de-produção), transformando o comunismo primitivo num Esclavagismo. Identificamos esta segunda fase com as relações de produção existentes na Grécia e Roma Antigas. Os senhores eram donos dos escravos mas eram também os pioneiros nos avanços técnico-científicos. Porém, o avanço da técnica (parte integrante das forças produtivas) não se coadunava com o estatuto de escravo que tinham os trabalhadores. Esta classe sem posses (que nem era dona da sua própria liberdade) começou a boicotar regularmente a produção, uma vez que não tinha interesse nas novidades técnico-científicas. Para que a produção crescesse e se diversificasse foi necessária uma alteração nas relações de produção. O escravo tornou-se vassalo, beneficiando de alguns direitos como a protecção do suserano ou o direito de poder vender parte do que produzia. Assim surgiu o Feudalismo, a terceira fase consagrada por Marx. Todavia, novamente as contradições internas deste sistema foram-se intensificando ao longo dos séculos. As forças produtivas tinham evoluído abismalmente, dando proeminência económica a uma classe endinheirada e dotada de conhecimento – a burguesia. Porém, as relações de produção mantiveram-se as mesmas, preservando a sociedade por ordens, em que se privilegiava o nascimento aristocrata e a legitimação divina, em detrimento da fortuna como critério para a ascensão social. Esta enorme contradição culminou na Revolução Americana e Francesa no final do século XVIII. Assim, a burguesia ganhou a elevação política que desejava, alterando as relações de produção, salvaguardando os seus interesses através do Capitalismo e abrindo caminho à maior inovação produtiva. A sua base material, junção entre relações de produção e forças produtivas, alicerçou o surgimento da superstrutura burguesa (conjunto de leis, filosofia, literatura, arte, etc aficionadas à classe dominante), principiando uma nova etapa histórica. Marx viveu esta 4ª fase da história humana, marcada pelo Liberalismo, Capitalismo, Revoluções Agrícolas e Industriais e Romantismo. A industrialização, segundo Marx, desencadeou a alienação pelo trabalho, isto é, o proletário só podia expressar a sua individualidade através da sua actividade laboral que dependia exclusivamente do patrão. Dado que a mecanização das funções produtivas era crescente, o trabalhador foi subalternizado para instrumento de produção, deixando de se poder expressar criativamente. Esta situação, segundo Marx, perpetuava a exploração do proletariado. No entanto, Marx professava a queda iminente desta nova ordem. Acreditava que a alienação pelo trabalho, o desemprego crónico e o decrescente poder de compra não eram coerentes com a produção em massa desgovernada. As contradições internas deste sistema intensificar-se-iam de tal maneira que as relações de produção estariam colossalmente díspares das forças produtivas, isto é, burguesia concentraria em si toda a riqueza e o proletariado
“nada tem a perder a não ser os seus grilhões”. Marx acreditava que o proletariado provocaria uma revolução violenta, derrubando o Estado burguês e instaurando a ditadura do proletariado. Esta seria a 5ª fase, a do Socialismo, em que o proletariado no poder nacionalizava todos os meios-de-produção e colectivizava as terras acabando assim com a propriedade privada, eliminando a distinção e a luta de classes. Depois de reorganizada, a sociedade caminharia para um estado de igualdade e liberdade, em que a produção seria equitativamente distribuída e a paz perduraria – atingir-se ia então o Comunismo – a 6ª fase e o fim da história

Another brave new world?

Há quase três séculos, o famoso poeta satírico irlandês, Jonathan Swift, propunha num manifesto da mais jocosa ironia, a venda das crianças como comida às famílias ricas para solucionar a grande fome que atormentava as populações irlandesas. Assim, diminuir-se-ia a criminalidade, as bocas por alimentar como também poupava-se na importação de alimentos e nos custos das famílias pobres.

Ora, temo que esta brilhante proposta esteja hoje posta em práticas com contornos complexos e refinados.

A intricada rede de absorção, exploração e descarte, que gere a humanidade, está no seu auge sob o, reinado iluminado da Senhora Austeridade (temo que não a possa identificar, contudo, rumores indicam para uma mulher trombuda, de meia-idade mais comummente confundida com a senhora Merkel ou a senhora Thatcher).

O seu trabalho árduo começa na absorção das crianças e dos jovens, num sistema público de educação que visa a superficialidade, o facilitismo e tecnicismo. Aqui os mancebos antes de conhecerem Garrett já sabem falar dos vários tipos de publicidade, antes de ouvirem Camões já passaram pelo PIB, dívidas, mercado de trabalho, cartas de reclamação. Destruiu-se o legado cultural do francês para importar a ditadura dos negócios da língua castelhana e já há quem se bata pelo mandarim. A cultura do debate secou, são raros aqueles que não caem na discussão dos crimes, dos “gajos”, das notícias patéticas da nossa Televisão insípida.  Não há tolerância, moderação e espírito crítico. Pior, não há conhecimento. As afirmações vagas, redundantes, irrelevantes, falaciosas, pouco ou nada fundamentadas, emocionais e imprecisas são a floresta pletórica gerada pelo nosso ensino. Ninguém consegue justificar pela apresentação de premissas afectas ao argumento, optando pelo ataque pessoal, pela infâmia ou pela demagogia. Para além disso, há um sentimento geral de descrédito pelas Humanidades e Ciências Sociais e Humanas, uma vez que não há uma solução laboral para acolher as centenas de jovens que saem dos cursos superiores de Antropologia, Arqueologia, Sociologia, História, etc. A escola perdeu o seu cunho generalista e humanista. Formamos brutos, incultos, intolerantes e ignorantes.

Nesta selva amazónica do total desnorte, vivem uns, poucos, mas resilentes que com os meios possíveis resistem a esta impiedosa realidade. Contudo, é difícil, nomeadamente na língua: anos e anos a ouvir má construção frásica, falta de hábitos de leitura ou mesmo programas e professores abaixo da média não perdoam. O peso deste malicioso legado é doloroso até para os mais lutadores. (Veja-se o terrível Sindroma da Falta ou Impróprio uso da Pronominalização).

Em suma, educamos opinion-makers, não interessa compreender as realidades mas simplesmente poder aparecer na televisão ou perante um auditório ingénuo e dizer umas quantas frases demagógicas, dizer uma piada brejeira e resolver o assunto com um bom comício. Temo que esta “nhoca-nhoca” (trouxe este nome para não dizer bolor; ranho; estrume;) seja o que lidera em qualquer campo político, jornalístico e educacional. Tornámo-nos nas colunas de percevejos que marchavam dolorosamente nos quartos imundos de Paris durante a primeira metade do século XX, tão bem descritos pelo magnífico escritor britânico Orwell. Mas quem sabe, atirando computadores e quadros electrónicos deve resolver o problema? Ou não… mas que se dane… é só a Educação de inúmeras gerações….

No crepúsculo da República Romana, uma grande sofista, Cícero, insurgiu-se contra o descaramento de um senador que armava um exército contra a metrópole. Copio as suas palavras para que despertemos deste letárgica realidade.

Até quando, enfim, ó Catilina, abusarás da nossa paciência?

Marcos Tulius Cícero

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