A praga do Eduquês

   Lembro-me de um momento ímpar na televisão portuguesa. O deputado ressabiado João Galamba do PS e o cronista do Expresso e ex-dirigente do Bloco de Esquerda, Daniel Oliveira, associaram-se para apelidar o Ministro da Educação e Ciência como talibã da educação, aquando da formação de governo. Ambos descreveram o pensamento de Crato como reaccionário, antiquado, vinculado à política de educação do Estado Novo mas redesenhada para servir os interesses do Neo-liberalismo. Segundo os mesmos, Crato advoga uma escola de autómatos, aspira somente satisfazer as necessidades de mercado de emprego e ignora a problemática da cidadania e do humanismo.

   Um observador atento e crítico (apanágios que infelizmente não caracterizam os senhores citados) perguntar-se-iam primeiro pelo motivo de tanto veneno, de tanta raiva conduzida contra Nuno Crato. Este facto alicerça-se no  profundo e inquebrantável dogmatismo que tem sido a ideologia dominante na pedagogia portuguesa das últimas décadas. Estes “pedagogos” românticos e construtivistas elaboraram uma mixórdia (digo mixórdia porque o pensamento expresso está longe de estar organizado e sistematizado).

   A pedagogia romântica e construtivista evoca a Teoria da Recapitulação Ontofilogenética (lei científica que afirma que o desenvolvimento do embrião repete o desenvolvimento evolucionário da espécie a qual pertence passando por etapas que se assemelham aos seus ancestrais na fase adulta), transpondo-a para o desenvolvimento emocional e cognitivo da criança. Assim, defendem que a criança irá recapitular as fases de evolução científica e humanística durante o seu crescimento. Um dos defensores desta teoria, Agostinha da Silva, dizia:

“[…] da criança nada há a exigir senão que se desenvolva segundo o seu ritmo e toda a interferência tiranizante do indivíduo adulto, que vive conforme um ritmo completamente diverso, não lhe pode ser senão prejudicial;”

    O que seria de nós hoje se Galileu, Copérnico, Darwin ou Freud não tivessem tido instruções escolares? Um documento oficial que apoiava firmemente esta tese era o Currículo Nacional do Ensino Básico: Competências Essenciais que era um colectânea de afirmações vagas, imprecisas, nada científicas, que bem podiam integrar um curso de fotografia ou de gestão. Felizmente foi revogado, e o programa de cada disciplina é hoje hegemónico e autónomo, livre destes constrangimentos ideológicos.

    Ainda dentro desta teoria afirma-se que a memorização e a automatização de alguns raciocínios devem ser preteridas, dado que isso não contribui para a resolução de problemas práticos da criança. Para além disso, estes pedagogos reafirmam a necessidade da criança compreender a utilidade de tudo o que aprende, e caso não o puder, tal conhecimento não lhe deve ser ensinado. Apenso a este paradigma inclui-se um desprezo pelo raciocínio abstracto e teórico, em prole de um concreto e localizado. Os pedagogos românticos justificam as suas escolhas na medida em que promovem as competências como a capacidade crítica, em detrimento da retenção de conteúdos e conhecimentos.

        “O papel do professor não é pois de transmitir ideias feitas aos alunos mas de os ajudar, através das tarefas apresentadas, a construir os seus próprios conhecimentos. […] Sendo assim, o professor deverá respeitar sempre a opinião do aluno e, mesmo quando esta é incorrecta, evitará emitir sobre esta um juízo de valor.”

   Então se o aluno chegar a conclusões erradas não deve ser corrigido? Desde quando é que existe uma Matemática, uma História, uma Gramática para cada aluno? De que maneira é que isto contribui para a comunicação e compreensão da realidade exterior?

        “A aprendizagem da simbologia escrita deve ser feita depois de efectuada a compreensão oral dos problemas […].”

   A segunda afirmação é amplamente condenada por professores e psicólogos que compreendem a necessidade de introduzir a simbologia como meio para a resolução dos mais variados tipos de problemas. Alunos que aprendam com laranjas e pauzinhos a fazer contas têm posteriormente mais dificuldade noutros raciocínios mais elaborados do que aqueles que aprenderam de imediato com a simbologia numérica. Outra objecção colocada é de que a interiorização de conhecimentos ou «ideias feitas» não contribui para o desenvolvimento do aluno. Pelo contrário! Estes pedagogos que têm um grande amor pela capacidade crítica desprezam-na efectivamente ao pensar que esta é manuseável no vazio. Citando Karl Popper:

        “[…] a verdade é que não pode haver uma fase crítica sem uma fase dogmática precedente, uma fase em que algo se forma – uma expectativa, uma regularidade, um comportamento –, de tal maneira que se possa começar a trabalhar na eliminação do erro.”

   Pretende-se formar sofistas bacocos, vazios de qualquer ideia! De que maneira é que alguém poderia ser crítico quanto à implantação da República se não dominasse as «ideias feitas» como liberalismo, parlamentarismo, jacobinismo, sidonismo, entre outros? O mesmo se passa na matemática. Que seria dos nossos estudantes se estes tivessem de descobrir por si próprios o teorema de Pitágoras ou sistema de Eixos Cartesiano. Esta pedagogia advoga as “narrativas matemáticas”, “matemática em contexto” (métodos que eliminam por completo o ensino abstracto e generalizante), culminado nuns radicais que querem substituir a Matemática pela Educação Matemática. Veja-se alguns dos seus escritos.

        “[…] a ênfase na Matemática escolar deve ser colocado [sic] na educação matemática (dos jovens) e não no ensino de (elementos de) Matemática.”

        “[…] a disciplina de Matemática deve ser eliminada dos currículos do ensino básico. […] Seja criada a disciplina de educação matemática […] o essencial da disciplina não será a Matemática mas o seu uso.”

   Ora, vemos bem as consequências perigosas destes raciocínios. Poderiam destruir uma geração inteira de alunos, que ficaria depauperada de capacidades abstractas, teóricas e generalizantes, essenciais para as aprendizagens futuras. Se a isto juntarmos o desdém pela aprendizagem de automatismos (como ler, escrever, contar e tantos outros) a educação estaria destruída em Portugal.

   É com prazer que vejo que o Nuno Crato está a implementar as mudanças que defendeu em variados programas, intervenções e livros. As disciplinas essenciais saíram reforçadas, as áreas não-curriculares irão desaparecer, os exames manter-se-ão mas com mais exigência (reformulação total do GAVE) e incidindo em mais anos de escolaridade, os conteúdos voltarão a ser preponderantes por relação às competências e as escolas terão mais liberdade e autonomia para adaptarem a sua realidade pedagógica às necessidades dos educandos. Ainda assim existem uns quantos que em vez de reflectirem preferem vociferar e nada propor para melhorar. Como o ditado diz, os cães ladram e a caravana passa.

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About João Quartilho

Estudante na FDUCP

Posted on Janeiro 19, 2012, in Actualidade, Educação, Política, Portugal and tagged , , , , , , , , , , , , . Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

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