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Guerra da mesquinhice ideológica

É engraçado como todas as facções ideológicas vêem a guerra da Líbia (e outras guerras com certeza) como se fosse algo relacionado com elas directamente. Em vez de se discutir apoios ou posições quanto à guerra, fazem-se juízos morais meramente mediáticos e lança-se para o ar afirmações e denúncias demagógicas. Caso mais recente foi a posição do PCP, que reprovava categoricamente «o massacre perpetrado pela NATO em Trípoli» (massacre que não existe). Ora, esta afirmação veio no seguimento do reconhecimento oficial por parte do Estado Português do Conselho Nacional de Transição líbio (CNT), órgão que orienta politicamente o Exército rebelde e tem negociado fundos e ajuda humanitária com a comunidade internacional. É curioso também como o PCP sem ter alguma fonte no local para interpretar os acontecimentos desta maneira pouco ortodoxa analisa a situação em Trípoli. Aliás, a análise faz-me lembrar a entrevista de Estaline ao jornal Pravda (Verdade) em 1951, em que se usam os mesmos argumentos contra os EUA, no cenário pós-guerra.

O PCP opôs-se à guerra na Líbia porque, e cito: «visa a satisfação dos interesses estratégicos das principais potências da NATO quanto ao controle de importantes riquezas naturais, o saque dos fundos soberanos Líbios e a imposição do domínio imperialista na região do Norte de África e Médio Oriente.» Esta frase não está desprovida de verdade. O próprio Presidente Obama afirmou na sua declaração há uns meses que a operação na Líbia almejava manter a estabilidade no Médio Oriente (estabilidade esta que é fundamental sem dúvida para o abastecimento seguro e a preços razoáveis de recursos naturais, nomeadamente os fósseis). Sem dúvida que a Líbia é um parceiro estratégico e que será sempre explorada se os seus lideres não se dispuserem a usar a riqueza do petróleo para desenvolver o país. Contudo, há que perguntar ao PCP: Como seria a Líbia se tivéssemos deixado o coronel Kadhaffi continuar o massacre de civis por viverem em cidades ocupadas pelos rebeldes (palavra que se aplica correctamente, contrastando com o exagero da declaração do PCP). Achará então o PCP que o coronel abdicaria do lugar e pararia as atrocidades cometidas se sanções fossem impostas? O PCP dirá que me desvio da questão, mas eu respondo. Seria uma situação igual à da actual Síria. O Presidente Bashar al-Assad continua, num regime de total impunidade, a esmagar qualquer movimento de oposição. Ora, dir-me-ão que isolar completamente o país resultaria e traria o regime autocrático ao seu fim. Era uma hipótese, mas isso envolveria a morte de milhares de protestantes, para além das populações que morreriam por não terem comida, água e outros bens essenciais, uma vez que estariam a ser concentrados em Damascos, o quartel-general de Bashar al-Assad.

Ora, felizmente não é essa a situação que se verifica na Líbia. A intervenção da NATO (embora um bocado coxa por não ter o total empenho americano) conseguiu esmagar as tropas lealistas de Kadhaffi. A falta de desenvolvimento de uma estratégia terrestre, isto é, ajuda militar através um exército regular na Líbia foi vital para manter boas relações entre o CNT e as potências Ocidentais. As contínuas intervenções militares no Médio Oriente nas últimas décadas fizeram surgir os sentimentos radicais islâmicos que visam a destruição do Ocidente cristão, industrial e imperialista. Todavia, não se verificou a intensificação desse sentimento na Líbia, já que só se prestou auxílio aéreo, marítimo e logístico. Porém, houve um preço a pagar. A guerra durou 6 meses e desgastou a população líbia como também as suas fontes de abastecimento, agravando substancialmente o problema humanitário. Contudo, o PCP prefere ignorar que desta Revolução possa advir um regime pluripartidário e democrático. Assim como o PCP e o BE, a esquerda dogmática denuncia a guerra, justificando-se ideologicamente que a esquerda é e será sempre uma plataforma anti-guerra, escusando-se sempre de propor alternativas viáveis para a democratização e desenvolvimento destes países.

Ainda assim, como já tinha dito, há alguma verdade na afirmação do PCP. Esta guerra aconteceu por essencialmente três motivos. Os EUA, através da NATO e juntamente com os parceiros europeus querem manter uma larga influência sobre os acontecimentos do mundo, nomeadamente nas áreas problemáticas como o Médio Oriente e o Norte de África; há também razões económicas, sendo que a Itália e a Alemanha são as principais beneficiadoras do petróleo líbio como também manter a estabilidade do seu preço; e, finalmente, há uma questão de proximidade geográfica. A Europa tem relações muito próximas com os países do Norte África, nomeadamente através das vagas de imigrantes que provém do Norte de África, pelo petróleo importado e pelas cimeiras organizadas entre os dois blocos geopolíticos. Seria, portanto, muito difícil aos líderes europeus abandonarem estes países que são estrategicamente importantes, com quem criaram fortes laços diplomáticos. Esta situação não se verifica na Síria por exemplo, que é um país do Médio Oriente, relativamente isolado da exposição mediática europeia.

Todos sabemos as intenções dos EUA e do Presidente Obama. Todos sabemos que quanto maior controlo os EUA tiverem sobre o petróleo, melhor será o preço e a segurança do abastecimento. E sabemos que este é objectivo de todos os Estados ocidentais industrializados. Contudo, isto não impede que haja a tentativa de criar uma Líbia mais desenvolvida (Kadhaffi tem cerca de 70 mil milhões de dollars em contas por todo mundo) que possa investir, criar algum bem-estar para o povo líbio. Sabemos que essa luta não será fácil, uma vez que será expectável, embora bastante reprovável, que as potências ocidentais cobrem agora a ajuda ao CNT. Todavia, permitir que este dogmatismo de esquerda – a plataforma anti-guerra – nos cegue, e que tome conta da opinião pública seria um dano incalculável ao bem-estar da Líbia e de outros países como este. É de rejeitar qualquer sentimentalismo pacífico, mascarado de falsa coerência ideológica que corresponde nada mais ao prolongar da descredibilização deste tipo de esquerda como também do sofrimento de outros povos oprimidos.

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