Monthly Archives: Junho 2011

A cara da Austeridade

Não vale a pena escrever um artigo analítico sobre a austeridade e as crises na Europa. Como diria Álvaro de Campos o cansaço cansa. Dói-me quando vejo estas imagens, quando me apercebo que a Austeridade se tornou na nova Igreja Católica ou no novo Império Britânico a defender. Dói-me porque as pessoas não se amam, não se tocam, não se sentem. Corrói-me sabendo que muitos aceitam esta situação acriticamente.

Esta é a única cara da Austeridade, não se iludam.

Anúncios

Passos sem paços: Será a surpresa?

Para aqueles críticos de perna alongada, de caixa de cigarros a transbordar de saliva de tanto fumar, que gostam tanto de exacerbar a sua coerência ideológica, política e partidária aviso já para irem dar uma volta. O que pretendo escrever não é de maneira alguma um elogio, tampouco a refutação de afirmações e posições passadas, mas uma reflexão assente na evolução natural de uma pessoa atenta, crente na realpolitik sobre ideologias de pessoas que já foram “adubar a terra”. Por outro lado, não pode ser encarada com um apelo à destruição de valores, de ideologia que deve servir, muito legitimamente, de base para toda actividade política. Deixo esta nota porque dado que a blogosfera é anónima o que encontro mais são blogue em que o ditame é a infâmia, a antinomia e a histeria.

Feito o apelo que deverá tolher tentativas patéticas de interpretação destas linhas, começo então a expor algumas das minhas visões sobre o novo Governo, a nova Assembleia e principalmente sobre a prospecção de futuro.

Digo-o frontalmente, não gosto do PSD, não gosto da sua agenda demasiado liberal (não digo neo-liberal porque não só as pessoas não dominam a amplitude real deste conceito, como o autor deste blogue, como dá um cunho demasiado faccioso a ser evitado) e não gosto de parte dos seus dirigentes. Irrita-me de imediato um partido que tem uma ideologia no nome mas assume outra nas suas políticas. Desde uma senhora que parece o revivalismo de Margaret Thatcher até ao Presidente da República que não é capaz de ser frontal. Felizmente, já não são estes os dirigentes do PSD.

Porém, ontem Assunção Esteves foi eleita Presidente da Assembleia da República, 2ª figura da República Portuguesa. Foi uma sinal claro de novo ciclo político. A oposição elogiou a nova Presidente da Assembleia da República, da esquerda à direita, gerou-se consenso quanto à sua competência e integridade. Por outro lado, a paridade da assembleia da República sai reforçada. Em suma, foi uma escolha inteligente, madura e acertada de Passos Coelho.

No mesmo dia tomou posse o Governo de Passos Coelho. Governo de coligação, em que quatro não têm afiliação política, 3 são do PP e 4 do PSD, Passos acertou em alguns nomes mas outros deixam dúvidas. Sucintamente, destaco o Ministro da Educação, Ensino Superior e Ciência, Nuno Crato. O matemático é um intelectual de referência no país, quer em matemática quer em pedagogia e políticas da educação. Tem uma visão muito clara e acertada do que deve ser o Sistema de Ensino, rejeitando em grande parte o legado educacional decadente dos últimos 25 anos de PS/PSD. Dos restantes ministros admito desconhecimento quanto a uma parte considerável deles como Paula Teixeira da Cruz (Min da Justiça), Álvaro Santos Pereira (Min da Economia), Vítor Gaspar (Min das Finanças), Paulo Macedo (Min da Saúde). Temo que no caso de Álvaro Santos Pereira, um puro académico, seja difícil coordenar o maior Ministério deste Governo. Concluindo, não me desagrada este governo mas não depositemos exagerada confiança.

Mas foi o discurso de Passos Coelho que mais me agradou. Definiu as linhas de acção do governo: um Plano de Estabilidade Financeira (evitável mas ao menos que seja convicto e tire-nos deste buraco), um Plano de Emergência Social e finalmente um Plano de Poupança do Estado e das famílias, acabando com os governos civis, atacando a corrupção e o despesismo. Comitantemente, o discurso é sóbrio, sem cair no “optimismo socrático”. Hoje, soube que Passos terá feito downgrade aos seus bilhetes de avião para ir em económica. Uns dirão que é populismo mas agradou e deu sinal de alguma mudança.

Agora esperemos para querer.

O mago que tentou sarar os nossos erros

José Saramago (1922-2010) é, sem equívoco algum, um dos maiores prosadores da Literatura Portuguesa. Antes de tudo, não pretendo, de maneira alguma, agora debater as suas qualidades literárias ou a pertinência das suas intervenções.

Saramago morreu há um ano. A sua obra é vastíssima, sublinho aqui Ensaio sobre a Cegueira, Jangada de Pedra, Ano da Morte de Ricardo Reis entre outras de muita qualidade. Não podemos esquecer Saramago, mas como Pilar disse, este ano não se sentiu a falta de Saramago, mas sim de José. Por de trás de todas as afirmações, às vezes polémicas, ou de todas as linhas deliciosamente escritas, esconde-se um homem, de convicções fortes, de uma astuta perspicácia. Mas esse é o Saramago, o corrosivo crítico, o carrasco do Catolicismo, o homem das letras. Estou hoje interessado no José. Sim, nesse banal José – que poderia facilmente ser confundido com o Zé Povinho – no José que lutou pela sua sobrevivência. No José que ia para a Biblioteca das Galveias e estudava, devorava o conhecimento e que se tornou um grande autodidacta. No José jornalista, serralheiro mecânico, no José com angústias, no José que teme o futuro, no José que sofre das mais banais trivialidades como todos nós.

O que é que fizemos? Vetámos a entrada do seu livro, O Evangelho segundo Jesus Cristo, na lista de romances portugueses candidatos ao prémio de prosa europeu.

E como qualquer homem se sentiria, José sentiu-se magoado. José que então se fez conhecer por Saramago continuou a sua carreira literária, escrevendo avidamente, sem preconceitos nem intrigas. Escreveu, denunciou, gritou. Voluntariamente exilado em Lanzerote, José escreveu para uma pátria que não o queria.

Não apelo que tenham empatia pela sua vida ou história biográfica, trata-se somente de uma exortação, para que fique registado nos anais da História que Portugal rejeitou um Grande Português. Porém, mais do que qualquer Saramago que quisesse louvar, foi rejeitado um José por ter sido simplesmente ele mesmo, José.

A mulher aproxima-se da grade de ferro, põe-lhe as mãos em cima e sente a frescura do metal. Não podemos perguntar-lhe se ouviu os dois tiros sucessivos, jaz morta no chão e o sangue desliza e goteja para a varanda de baixo. O cão veio a correr lá de dentro, fareja e lambe a cara da dona, depois estica o pescoço para o alto e solta um uivo arrepiante que outro tiro imediatamente corta. Então um cego perguntou, Ouviste alguma coisa, Três tiros, respondeu o outro, Mas havia também um cão aos uivos, Já se calou, deve ter sido o terceiro tiro, Ainda bem, detesto ouvir os cães a uivar.”

Ensaio sobre a Lucidez,

José Saramago

Que descanse em paz aquele que de alguma maneira tentou sarar os erros de Portugal, escrevendo e mostrando um caminho.

Tendências Sádicas – Parte II


Underlings… a pior espécie de homem. Seria este o tópico da segunda parte das Tendências Sádicas. Mas encontrei este manifesto, que por sinal já tem 100.000 assinantes – Manifesto Em Defesa da Festa Brava – que, muito sinceramente, enojou.

Este manifesto, assinado sim por “hordas de analfabetos”, incorre em inúmeras falácias: do Apelo à Autoridade, Ad Hominen, Ad Ignorantium, Ad Misericordiam, Falsa Causa, do Modus Ponens, da Derrapagem, da Composição. Assim sendo, parece-me evidente a falta de plausibilidade deste argumento, porém, vou escrutinar falácia a falácia, refutar a ignomínia que o Dtº Francisco Moita Flores lança sobre os grupos activista, desmascarar o conhecimento histórico que mostra como incontornável e considerar inválido os poucos argumentos que apresenta.

Falácia de Apelo à Autoridade e Ad Misericordiam

O autor deste manifesto apresenta-se como o modelo de bom português. É Chefe de família, tem vida social activa de escritor, foi o Inspector implacável e é Presidente de Câmara louvado pelos seus munícipes. Para além disso é melhor que o ordinário português – é franciscano. Da sua história de vida, Francisco Moita Flores vai inferir 3 premissas que lhe vão permitir afirmar erradamente que é a pessoa adequada para falar deste assunto. Numa primeira instância afirma que é um português rural, mas pergunto agora: qual é a relevância desse dado para a argumentação que faz? Qual é a diferença entre o português rural e o português citadino, a diferença que permita de facto, racionalmente afirmar que um português rural conhece melhor as dinâmicas “psico-afectivas” humanas que os citadinos. Aliás, usa-se de Roland Barthes, que terá tido contacto muito provavelmente na cidade uma vez que foi nesses ambiente que obteve os estudos mais avançados. Por outro lado, as estatísticas dizem-nos que o português citadino terá acesso a mais instrução, melhor educação por parte dos pais e por parte da escola. Assim, pelas palavras de Moita Flores só se justifica racionalmente o campo segundo a óptica de quem vive faz trabalho académico no espaço urbano mas, apesar disso, dá destaque a uma questão desprovida de sentido e conteúdo como a relação que teve e tem com o campo durante a sua vida.
O presidente da câmara apresenta-se também como alguém que compreende intrinsecamente a emoção e o sentimento humano. O “sofrimento mais pungente” que testemunhou é base para as afirmações que neste manifesto profere. Ora, um olhar atento sobre esta passagem vai revelar certamente uma Falácia Ad Misericordiam discreta sem dúvida mas presente. Dá como prova da sua credulidade a miséria humana que certamente assistiu, no entanto, é inevitável a invalidade desta premissa. Partido deste sofrimento, Moita Flores assume-se como um franciscano, devoto do seu santo, S. Francisco de Assis, patrono dos animais e da Terra. Novamente, a não ser que vá proceder a uma análise racional das touradas e do seu enquadramento segundo um sistema de valores éticos (uma vez que afirma ter um – o da Ordem dos Franciscanos) esta referência mostra-se desnecessária e irrelevante.
O autor do manifesto socorre-se, logo nas primeiras linhas, de uma argumentação que apela à empatia pelo seu percurso biográfico e não por uma visão crítica e assertiva sobre o assunto. Para além disso, quando submete algum elemento deste manifesto ao crivo racional, este acaba por nem ser plausível nem válido.

Falácia da Falsa Causa

Moita Flores consegue cometer as maiores atrocidades ao estudo da História. Serve-se da retrospectiva para uma única só posição: sempre foi assim e por isso deve continuar a ser assim. O “aficionado” faz uma breve descrição, passando competentemente pelas civilizações mais importantes, em que destaca o “enredo taurino” como parte do “psicodrama essencial do homem”, numa “dimensão trágica”. Ora, Moita Flores mostra-se, primeiro que tudo, uma pessoa das modas. O uso de vocabulário específico, num manifesto que se auto-denomina como petição pública, dá um tom jocoso ao texto, uma vez que as posições expressas não escrutináveis pelo público comum. Porém, a situação agrava-se quando o autor tenta incutir uma lição muito mal dada da História.
Proponho que façamos um exercício. Proponho ao leitor que pense em duas vitórias da humanidade e dos seus direitos durante o século XX. Agora que reflicta sobre as circunstâncias que permitiram a conquista desses direitos e a evolução do seu contexto desde a Grécia Antiga. Ora, o homem foi cidadão em Atenas e em Roma, servo, vassalo, súbdito, cidadão, súbdito outra vez e hoje cidadão. Pergunto-me se Jean Paule-Sartre terá olhado para a propaganda fascista ou nazi. Terá ele dogmaticamente aceite aquele exemplo de cidadania, vergada ao totalitarismo? Terá ele dito aos seus compatriotas franceses: – Não lutai por condições de vida, de trabalhos, direitos inalienáveis porque somos instrumentos do Estado -? Parece-me que o existencialista francês soube fazer uma análise inteligente da história e proceder à triagem necessária. Ora, Moita Flores, pelo contrário, absorve tudo e aceita tudo como verdadeiro sem se quer expor uma tese válida assente nestes factos históricos. Acredita sim no conservadorismo e que as tradições e costumes devem ser preservados em nome da estabilidade socioafectiva do homem. Pelo contrário, seres humanos que se deleitem ao assistir ao sofrimento de um animal claramente têm eles problemas do foro psicológico e deviam ser tratados, contudo, isso não é justificação para se manterem tradições absurdas e atrozes.

Falácia da Composição, Ad Ignorantium e da Derrapagem

    Moita Flores num só parágrafo consegue destituir a sua argumentação de toda a plausibilidade e racionalidade. As hostes abrem-se com uma Falácia da Composição: num acto de séria ignorância Moita Flores mistura militantes de diversas causas, umas reconhecidas internacionalmente como a do Lince Ibérico e da Água, outras mais localmente como a defesa do lobo ou a luta pela abolição das touradas. Esta ignorância orgulhosa culmina com a afirmação que estes movimentos não respeitam nem a mãe da natureza nem a humanidade. Pergunto ao senhor presidente da câmara como é que ele fundamenta estas afirmações graves e quase sem precedentes. Não apresenta nem um. Prefere somente atirar um chorrilho de infâmias e desconsiderações sem qualquer tipo de sentido ou pertinência.
No entanto, em duas frases, Moita Flores as suas verdadeiras intenções. Não pretende discutir realmente a problemática das touradas. Resume-se tudo a uma questão de fé. Relega para segundo lugar qualquer tipo de argumentação convincente, criando uma barreira entre o bom rural português e o morto vivo da “horda de analfabetos”. Na verdade, Moita Flores não pretende angariar militantes para a sua causa, quer sim aumentar o fosso entre os dois lados, impedindo uma solução consensual, o diálogo interno, a reflexão. Ao desconsiderar por completo a argumentação, afirmando peremptoriamente que qualquer ateu não poderá compreender as touradas, Moita Flores visa somente prolongar uma guerra sem justificação, para poder emergir como o lutador celestial da defesa dos direitos ancestrais do homem. Acusa de fundamentalismo
aqueles que protestam, que estão abertos aos diálogos e que não se escondem atrás de petições online ou de pretensos axiomas religiosos.
Parágrafo falacioso atrás de parágrafo falacioso, Moita Flores, mesmo assim, acredita que é numa argumentação barata e imprecisa que vai assentar a sua posição. Muito bem, continuemos a analisar. A seguir aos prenúncios dogmáticos, o autor afirma histericamente, numa gradação crescente e despropositada, que quem luta contra as touradas é, com efeito, um hipócrita porque não luta contra a violência doméstica. Sentindo-se impotente para persuadir o leitor, Moita Flores recorre à Falácia da Derrapagem. O autor enumera as batalhas em que estes movimentos deviam fazer parte. De repente aqueles que lutam pelo Lince Ibérico também deviam estar na luta contra a violência doméstica e até na luta contra a guerra. Pergunto ao Dto. Moita Flores então se não quer ser Presidente de todas as Câmaras Municipais de Portugal, para lutar em todas as frentes? Ou se calhar voltar à P.J para combater numa frente mais interessante? Estas afirmações são despropositadas e para quem alega defender a liberdade do homem e da terra mostra uma hipocrisia assente nos interesses próprios e não num diálogo franco e razoável. Esta ingerência na agenda de outros movimentos é inadmissível e antidemocrática.

Falácia Ad Hominen e de Modus Ponens

    Moita Flores é entediante. Nos parágrafos finais já nem tenta esconder a sua insolúvel raiva, apesar de se chamar um tolerante e liberal. Insulta declaradamente os seus adversários. “Horda de analfabetos”, “angustiados”, “talibãs” revelando displicência por aqueles que foram de facto vítimas dos actos terroristas dos talibãs. É escusado averiguar mais esta questão, o social-democrata prefere uma Falácia Ad Hominen a qualquer outro tipo de discurso.
Porém, é curioso ver como a sucessão de afirmações falaciosas culmina na tentativa bárbara de argumentação que, por sua vez, é também falaciosa. Vejamos este caso flagrante de uma Falácia de Modus Ponens.

“(…) que só é possível salvar os Direitos do Homem se com eles salvarmos os Direitos da Terra. É a minha crença profunda. E sei que o combate passa por afirmar a defesa dos símbolos, dos valores, dos ritos, das cargas simbólicas que consolidaram a nossa secular matriz identitária.”

A – Salvar os Direitos da Terra
B – Salvar os Direitos do Homem (O combate passa por afirmar a defesa dos símbolos, dos valores, dos ritos, das cargas simbólicas que consolidaram a nossa secular matriz identitária)

A formalização deste argumento é o seguinte:

A => B
B
————-
A

Ora, qualquer pessoa com um mínimo de formação lógica sabe que a afirmação do consequente (B) não obriga em caso algum a verdade e a ocorrência do antecedente (A). Com efeito, o que Moita Flores esconde e tenta encapotar é que para ele a defesa Direitos da Terra não são uma causa obrigatória para a defesa dos direitos do homem, senão teria enumerado os direitos da natureza e não, como fez, dizer que o combate passa, novamente, pelos direitos do homem.

Conclusão

A validez deste manifesto está claramente posta em causa. Assim sendo, parece-me completamente disparatado classificar este manifesto como alguma tentativa de persuasão real da condição moral e aceitável da “Festa Brava”. Pelo contrário, é uma marcação de posição de guerra, de um dogmatismo ingénuo e insuflado que acabará nas ruas da amargura. Por outro lado, Moita Flores revela uma ignorância brutal quanto aos fenómenos de êxodo rural (a segunda fase deste movimento ocorreu dentro do interior: as populações deslocalizaram-se das aldeias para as capitais de distrito), esquecendo que é na cidade que se dá a tourada, o mesmo poço de “radicalismos” e decadência.
Este manifesto é prova que a luta pelos direitos dos animais não está ganha, que na outra barricada reside sim uma “horda de analfabetos”, fundamentalistas da fé, preconceituosos que não querem de maneira alguma argumentar mas sim preservar ancestralidade obsoletas e imorais. O paradigma tem de mudar e conto com os meus leitores!

Ânsias eleitorais

   Sexta à tarde… faz calor mas uma janela estrategicamente aberta é o suficiente para agradar os mais despreocupados. Olho para esta folha de Word e sinto-me algo perplexo: não tenho muito a dizer sobre estas eleições, senão mesmo nada, já que acusar o político descarado ou repetir as minhas crenças (ou chavões?) ideológicas tornou-se numa tarefa banal e entediante. Os políticos portugueses cansam-me. Os comentadores, cronistas, pseudo-comentadores, pseudo-cronistas, pseudo comentadores de pseudo estudos de sondagens. Enfim políticos e pseudo profissões cansam-me.

O Sócrates não me suscita qualquer tipo de sentimento, sei o discurso dele de trás para a frente, os seus erros, as suas técnicas, a sua equipa, o seu programa, enfim, sou quase um socrático. Não preciso de ouvir os comentadores políticos. Não dizem nada de novo, assemelham-se aos dirigentes do PCP ou ao meu manual de geografia – toda a gente sabe o que dizem mas por alguma razão divina e inconsciente desfrutamos da repetição. Olho para este emaranhado de letras e quero escrever, quero mostrar ao mundo como a política é a actividade humana mais nobre, mais profícua, mais estimulante. Quero agregar à minha volta um grupo de jovens paladinos, ciosos do bem-comum.

Já ninguém sente a política. Não digo vivê-la mas senti-la. Aquele furor sanguíneo de quem está num sótão à meia-noite em ponto assistindo a um parto de um besta sobrenatural, talhada de veias de esmeralda, de cara já marcada, focinho largo mas adocicado. Os seus olhos avermelhados brilham humedecidos, nasceu agora e já está possuída de um ódio, de uma sofreguidão em aniquilar-me. A besta, molhada ainda do ventre de uma criatura igual, esmaga-a e fita-me nos olhos. Não me amedronta. Já ninguém sente a política. Escrevo freneticamente, encostado à portada interior de uma rosácea envidraçada naquele sótão maldito. A besta aproxima-se e enfurecida desfere-me um golpe no braço direito. Gemo mas desprezo-a.

Obliterado pela falta de pensamento paro, a besta dissipa-se à minha frente, e o que eram antes veias musculadas protegidas por uma camada de pele grossa e coberta de pelos é agora pó avermelhado e esverdeado. A lua dá-lhe um brilho dourado mas não importa porque já o pó tinha desaparecido e a criatura anteriormente morta, pare novamente num sofrimento tal que vomito no chão e continuo a escrever.

Olho novamente para este emaranhado de letras e, sorrindo, admito-o: a minha literatura prosaica não tem grande qualidade, para bem e mal dos meus pecados vou permanecer na política.

%d bloggers like this: