Monthly Archives: Maio 2011

Ideia nº 1:Faixas para Peões

Saudações irmãos. Para os que não me conhecem (i.e. todos), o meu nome é Gil/Felix (conforme a personalidade dominante na altura), sou aluno na espelunca Universidade Nova de Lisboa, no curso de química. Quando o Sr. Quartilho me convidou a escrever para o seu novo site, não pude recusar, sendo o verdadeiro patriota que sou, sem mencionar que nunca perco uma oportunidade de tornar a minha enorme raiva pública.

Apesar de ainda estar a discutir os detalhes com o nosso mestre, em princípio contribuirei com dois tipos de artigos para este prestigiado espaço virtual. O primeiro tipo de artigos, de natureza mais séria, será colocado na página inicial e serão semelhantes aos artigos do Sr. Quartilho, reflexões sobre acontecimentos ou mentalidades que eu considere significantes para minha pessoa. O segundo tipo de artigos, de natureza prática e de maior importância, serão colocados n’ O Cantinho do Gil: Ideias para Portugal. A excepção será o primeiro artigo do Cantinho, que será incluído neste artigo.

Em princípio, não contribuirei a intervalos regulares para o site, uma vez que a vida académica me ocupa o seu tempo, principalmente as disciplinas menos úteis. Ainda assim, gostaria de contribuir com pelo menos um artigo por mês ou dois… e penso que é tudo o que tem de ser dito. Assim, sem mais demoras, preparai as vossas mentes para a sabedoria da primeira ideia para Portugal.

Ideia nº1: Faixas para Peões

Quantas vezes foi o seu caminho bloqueado por um grupo de adolescentes, provavelmente semi-embriagados, que ocupam o passeio todo e o obrigam a passar pela estrada para os ultrapassar, ou o atrasaram significativamente com o seu andar lento? Quantas vezes foi a sua paciência testada por idosas que passeiam quatro cães ao mesmo tempo, impedindo a passagem de qualquer outro ser? Não haverá uma maneira de evitar estas situações? Esperar que as pessoas se respeitem umas às outras e não interrompam a passagem é demasiado, por isso, o que fazer?

Felizmente, o seu melhor amigo tem a solução: faixas para peões, propriamente monitorizadas por câmaras de vigilância e, em certos casos, polícias. Com um funcionamento semelhante às faixas nas estradas, estas faixas resolveriam todos os problemas de circulação. Os adolescentes embriagados seriam forçados a deslocar-se na faixa da direita, assim como os cães todos, deixando as restantes faixas livres para a sua passagem. Se os adolescentes tivessem dificuldades em falar assim, teriam sempre a possibilidade de se deslocar a um café, parque, ou estrada movimentada. A idosa poderia treinar os cães para estes se deslocarem em linha, provavelmente ganhando algum dinheiro com o número e desenvolvendo uma melhor relação com os animais, ou, se não tivesse paciência, poderia sempre passear um cão de cada vez.

Mas isto não é tudo. Incluído no pacote desta ideia vem outra: buzinas para peões! Se, apesar da sugestão anterior, as faixas estiverem todas ocupadas, pode utilizar a sua buzina, para se sentir superior, aliviar o seu stress enquanto aumenta o stress de todos à sua volta, e não fazer a fila avançar nada! Claro que, em caso de necessidade extrema, pode utilizar a sua buzina no caso do peão à sua frente cometer uma infracção, mas este não é o seu propósito principal.

Com estas duas ideias, a circulação de peões tornar-se-ia muito mais eficiente e controlada, e colocaria mais pessoas na prisão, reduzindo ainda mais a congestão. Como é que ainda não foi aplicada? Até me disponho a que utilizem esta ideia sem me pagar nada, uma vez que um ser avançado como eu não necessita de dinheiro (para isso é que serve a família). Pensem sobre o assunto e contactem o vosso representante local: juntos, podemos tornar este sonho realidade!

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O uso de animais em experiências científicas

   A ciência e a técnica afirmaram-se como pilares fundamentais das sociedades modernas a partir da Revolução Industrial. Assim sendo, foi necessário procurar princípios éticos que regulassem a actividade científica, salvaguardando a dignidade humana e animal, estabelecendo o que é moralmente aceitável ou não durante uma experiência científica. No entanto, esta relação não tem gerado consenso. A evolução da técnica tem proporcionado grande bem-estar material às sociedades contemporâneas, mesmo que isso envolva – e seja de conhecimento público – o sofrimento humano e animal.

   Será eticamente aceitável submeter animais a experiências científicas? O argumento a favor mais significativo é baseado no especicismo – atribuição de valores e direitos diferentes consoante a espécie. O especicismo assenta na presunção que os seres auto-conscientes e racionais, isto é, a espécie humana, têm os seus interesses valorizados em detrimento dos interesses animais. Portanto, segundo uma ética utilitarista, é aceitável o uso de animais em experiências científicas se o resultado contribuir para a felicidade e/ou diminuição do sofrimento humanos. No entanto, há, também segundo a ética utilitarista, um argumento contra o especicismo. Este argumento tem como base o princípio da consideração igual de interesses. Este princípio afirma que não é no critério da racionalidade ou da auto-consciência em que se deve basear a ponderação moral mas sim na condição de senciência, ou seja, na capacidade de sofrer ou sentir prazer ou felicidade. Portanto, a deliberação moral tem de ter em conta o potencial sofrimento ou prazer dos animais ao mesmo nível que os da espécie humana. Deste modo, torna-se inaceitável o uso de animais em experiências científicas que visem somente satisfazer a humanidade. Porém, também são salvaguardados os interesses humanos, isto é, se existisse uma hipótese científica que trouxesse uma vacina revolucionária, seria aceitável submeter animais à sua experiência se não houvesse alternativa.

   O princípio da igual consideração de interesses parece ser o mais plausível uma vez que, se aplicado, reduziria brutalmente o sofrimento no globo sem prejudicar a investigação científica sobre doenças humanas. Porém, seria necessária uma mudança drástica de hábitos, deixando aqueles que apesar de proporcionarem prazer ao homem , envolvem o sofrimento de biliões de animais.

O Leviatã Europeu

Olhar para a União Europeu, causa, quer seja um Eurocéptico quer seja um Europeísta, uma comichão endiabrada no cocuruto na cabeça que dificilmente sairá com um leve kafuné. A U.E está perante desafios difíceis e mostra-se incapaz de articular uma resposta rápida, eficiente e profunda. Que projecto temos construído ao longo destes 50 anos? Sem dúvidas que idealizamos uma Europa melhor, primeiro pensámos na economia (CECA e CEE) mas depois alargámos horizontes e vislumbrámos uma Utopia – ultrapassar os EUA e os países emergentes e afirmarmo-nos como o pólo das melhores práticas democráticas, éticas e pedagógicas do globo. Uma Europa de trabalho qualificado, uma Europa economicamente sustentável, o tão prezado Modelo Social Europeu conservado e reforçado, a luta pelos Direitos Humanos – uma Europa vanguardista em todas as áreas, uma Europa em que o Capitalismo estava subordinado ao interesse social. Que Europa temos hoje? Ou melhor, que “União” temos hoje? É a União dos Nacionalismos, a União do Saque pelos juros, a União dos Interesses Nacionais. Porém, também a União Energética, um Mercado Comum que prosperou, União do Modelo Social que embora esteja a derrocar ainda existe, a União da sustentabilidade ambiental, a União da Paz que faltou durante milénios.

Contudo, podemos e devemos fazer melhor. Não faz sentido a comunidade internacional, principalmente os parceiros europeus, unirem-se para emprestar dinheiro a uma economia em recessão a juros de 5,7%; não faz sentido cortarmos nas pensões, nos salários, na educação, na saúde em nome de compromissos que não foram assumidos pela população e que pouco valem. Empobrecemo-nos para enriquecer os mais ricos somente para honrar dívidas obscuras. Quando aderimos à C.E.E inundaram o país de fundos estruturais e não controlaram as despesas que fazíamos minimamente, mas por outro lado, obrigavam-nos a cortar na agricultura, nas pescas, na indústria. A Europa estava a entrar numa crise de superprodução e coube a nós, a troco do dinheiro, cortar nessa produção. Não aproveitámos essa hipótese. Podíamos ter tornado num país próspero baseado nas exportações de alta qualidade em todas as áreas de actividade e ter uma educação de excelência. Que fizemos? Auto-estradas, estádios e corrupção. O dinheiro destinou-se a isto. Mas a culpa não morre sozinha. Se o filho peca por ignorância, os pais pecam por incompetência. Ansiosos de canalizar as suas indústrias para países recentemente abertos, a Europa só se preocupou em vender e emprestar dinheiro que agora reclama como um bom Governador Colonial faria. Os países nórdicos estiveram em crise no final da década de 90, hoje ainda são o espelho da modernidade e do desenvolvimento.

Por outro lado não é só no campo económico que assistimos à degradação Europeia. A prioridade económica pôs todos os outros assuntos em segundo plano. Criada recentemente a posição de Alto Comissariado para as Relações Externas pelo Tratado de Lisboa (2007) que unificaria as vozes da União numa só quanto à política externa, esta revelou-se um completo fracasso. A Sr.ª Catherine Ashton não conseguiu mobilizar os Estados-membros em torno de um objectivo intervencionista comum. Vejamos o caso da Líbia que foi um excelente teste a esta “União”. Quando rebentou a guerra houve uma semana de puro silêncio. Falar do assunto era meramente um motivo para ir tomar café nas instituições europeias. Teve a ONU de emitir um mandado internacional encarregando a NATO e restantes aliados para protegerem os civis líbios que eram deliberada e cegamente mortos por estarem em cidades ocupadas por rebeldes. De imediato a França, mobilizou-se, trouxe o Reino Unido para o conflito e como dois calimeros iniciaram operações militares de bombardeamento na Líbia ainda sem o apoio da NATO ou de outros países europeus. Foi o fracasso. Teve dos EUA mobilizar a NATO para que existissem progressos. Ao mesmo tempo, Itália e Alemanha rejeitavam uma participação activa nas operações revelando um total desinteresse por questões humanitárias e olhando somente para a questão da imigração e para as despesas decorrentes. Será inútil reiterar a total ausência de Catherine Ashton no desenvolver destes acontecimentos. É disto que se trata a Europa, uma Europa de funções, uma União de desuniões. A Itália que resolva a imigração, a Alemanha que financie a Europa, o Reino Unido que faça a diplomacia e a França que se envolva nos conflitos armados (faço uma pequena referência a um momento de neo-colonialismo há uns meses: quando o Presidente anti-francês na ex-colónia francesa, Costa de Marfim, decidiu não aceitar o resultado das eleições e começou a bombardear indiscriminadamente civis para impedir que fosse legalmente deposto, a interpretação francesa do mandato da ONU de proteger civis foi bombardear brutalmente o bunker de Gbagbo como se tratasse do Führerbunker em 1945). Olhando para esta composição, salvo o Reino Unido, dir-se-ia que voltámos a exclusiva cooperação económica da Comunidade do Carvão e do Aço.

A União falha na economia que está virada para os banqueiros, falha na política externa que está virada para os nacionalismos mas também falha na ética que juramos respeitar. Em plena crise das dívidas soberanas e com 3 planos de resgate em curso na Europa, os eurodeputados acharam por bem rejeitar a proposta de Miguel Portas que obrigava a todos os Eurodeputados a viajar em económica nas viagens dentro da Europa. Impusemos reformas alargadas nos países que se juntaram à U.E mas nos bastidores na Hungria são aprovadas leis contra a liberdade de expressão ou uma Constituição que fala de Deus, Pátria e na Família. Europa do armamento, da burocracia e dos gastos supérfluos. U.E que atribui reformas completas ao fim de 12 anos de serviço nos organismos europeus, Europa que evitar lidar com ditadores (veja-se como assobia para o lado enquanto na Síria o Presidente Bashar Al-Assad massacra o seu povo) e que só o faz quando os seus interesses são magoados. Europa que critica a guerra ao terrorismo mas que se esconde atrás da almofada confortável que os EUA proporcionam ao Ocidente.

Esta é a União Europeia, uma organização que tal como a ONU foi tomada conta pelos membros mais poderosos que se servem para projectarem os seus interesses políticos, económicos e militares. Esta não é a Europa da solidariedade, da paz e da propriedade social e sustentável que Robert Schuman e Jean Monet idealizaram. Uma Europa cercada por partidos conservadores e cristãos, uma Europa que teima em fechar-se no seu mundinho não querendo mudar nem de mentalidade nem de dirigentes. Uma Europa que assiste aos progressos na Islândia (julgamento dos banqueiros criminosos e retorno ao desenvolvimento depois da crise de 2008) apática e sem respostas. A União que se tornou no Leviatã de Hobbes, um monstro burocrático que consome tudo à sua volta.

João Quartilho

Tendências Sádicas – Parte I

Tendências Sádicas – I

Quantos de nós já se deleitaram com a humilhação de outro? Atiraram-se à emotividade (alguns a planos maquiavélicos) e despertaram em si uma vontade sádica; uma necessidade de colocar os outros em situações de sofrimento, de humilhação, enfim: de dor. Não é o meu propósito, de maneira alguma, estar a debitar teses incoerentes e vagas sobre Sadismo ou das causas psicológicas que o levam a manifestar-se em cada um de nós. As Tendências Sádicas surgiram em jeito de construir uma ponte entre um Sadismo manifesto e um Sadismo Social incosciente, ligado a uma verdadeira Sociofagia sem remorso.

Todos nós consumimos seres humanos. Sejamos francos, os nossos telemóveis têm volfrâmio, ouro, cobre, prata e mais uma quantidade de minerais infindável. Quem é que os traz? São uns pobres desgraçados nas minas na África Central, em países como o Congo, em que são escravos. O resto trabalha nas poucas minas do Mundo Ocidental, vão para casa aos 50 anos, com diversos cancros e pulmões que também parecem mais minério que outra coisa, não esquecendo os seguros de saúde miseráveis. E a verdade é que não queremos saber.

Em si não é algo Sádico, mas todos nós consumimos sofrimento de um ser humano. Não é o suor, não é o trabalho. É o sofrimento humano. Agora multipliquemos por mil, dez mil, cem mil, enfim por todas as lágrimas derramadas. Infelizmente, é este o nosso legado. Nós, Ocidentais, grandes democratas, guardiães dos enclaves magistrais da defesa dos direitos humanos somos quem mais faz os outros sofrer. Mais que qualquer Senhor da Droga ou da Guerra, Latino, Africano ou Asiático. Conciliamos esta nossa face progressista e iluminada com o descaramento mórbido. Exploramo-los para satisfazer as nossas ambições materiais desmesuradas, de seguida fazemos reportagens e denúncias num espanto hipócrita nunca esquecendo os lucros que daí advêm.

Isto não é tudo. Olhemos para os BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), destes quatro só o Brasil fez progressos notáveis em todos os campos; a Rússia mudou de comunismo para uma oligarquia mafiosa. Aliás o Governo não está tomado pela Máfia, o Governo é a Máfia; a Índia continua num sistema de castas ancestral e pratica verdadeiras atrocidades sociais; finalmente, a China é um monstro ideológico tal que nem me vou debruçar sobre ela. O que têm comum estes três últimos países e mais uns quantos latinos, asiáticos e africanos? Estão tomados por elites oligarcas. Eles praticam o modelo ocidental à sua escala. Importaram a Coca-Cola, a Louis Vuitton e, claro, o Sadismo. Mas há que reconhecer um dos seus méritos. Foram ainda mais sádicos que nós todos. Exploram os seus compatriotas e destroem as economias Ocidentais que ainda não tinham atingido essa vontade voraz de engolir o Mundo. De tal maneira que nós temos de negociar com estes países que nem sequer promovem liberdades individuais básicas.

Portanto, a prática deste ciclo vicioso ultrapassou fronteiras. É nesse estado em que nos encontramos. Os Nacionalismos ressurgiram na Europa, em resposta à falta de aproveitamento europeu da globalização da Sociofagia. Autolegitimamo-nos afirmando que temos uma cultura de séculos e que na Europa existem as melhores práticas da liberdade, desenvolvimento e progresso. Mas para manter este estatuto teremos de subordinar o resto do Mundo. Não foi isso que Hitler fez? Que o Império Romano fez? Que os EUA têm feito e ainda fazem? Não criticamos esses todos? Não os apelidamos de Imperialistas, Neo-Colonialistas, Fascistas, Tiranos e montes-de-palavrões sem sentido algum? E o que é que nós Europeus, em particular Portugueses, no nosso púlpito da, desgraça, culpados de uma crise “alheia” somos?

Basta ter visto a matiné histórica passada.

Sádicos.

1º de Maio, 2011

João Quartilho

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